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Quando a sociedade não protege os mais frágeis

Especialistas em saúde mental e comportamento humano analisam o assassinato do cachorro Orelha, a violência precoce e os sinais que o Brasil insiste em ignorar


Pesquisas apontam que em 81% dos lares onde há violência contra crianças, também existe violência contra animais. O elo é simbólico mas concreto: vítimas frágeis, incapazes de se defender ou denunciar, tornam-se alvos preferenciais.
Pesquisas apontam que em 81% dos lares onde há violência contra crianças, também existe violência contra animais. O elo é simbólico mas concreto: vítimas frágeis, incapazes de se defender ou denunciar, tornam-se alvos preferenciais.

Por: Daniela Costa


O assassinato brutal do cachorro Orelha, cometido por adolescentes de famílias da elite econômica brasileira, provocou comoção nacional e expôs um debate que vai muito além de um crime isolado contra um animal. O caso, marcado por relatos de antecedentes como ameaças, tentativas de agressão a outros animais e intimidação de testemunhas, reacende uma pergunta central: o que esse tipo de violência revela sobre o desenvolvimento emocional, social e moral desses jovens e como a sociedade tem contribuído para que isso aconteça. 


Para a psiquiatra Katia Pegos, episódios como do caso Orelha não podem ser tratados como desvios pontuais. “Não é possível realizar diagnósticos sem uma avaliação individual, mas a crueldade extrema contra um animal jamais pode ser minimizada ou banalizada”, afirma. Ela reconhece que, na adolescência, o chamado efeito manada pode influenciar comportamentos, mas estabelece um limite claro: “Uma coisa é tocar a campainha do vizinho e sair correndo. Outra, completamente diferente, é praticar atos com requintes de crueldade”.


Nessas situações, diz ela, o comportamento coletivo não apaga a responsabilidade individual. “Pelo contrário. Exige avaliações cuidadosas, porque a violência extrema costuma sinalizar algo mais profundo”. A psiquiatra recorre à “Teoria do Elo”, desenvolvida a partir de estudos iniciados nos anos 1960 e hoje utilizada por órgãos internacionais, como o FBI. A teoria aponta uma conexão consistente entre a crueldade contra animais, a violência doméstica e crimes contra pessoas. “Sinais de violência contra animais na infância e adolescência são preditores de condutas violentas futuras, inclusive homicidas”, explica.


“Crianças e adolescentes com traços agressivos precisam ser observados e acompanhados. Ignorar sinais é permitir que a violência escale”, diz a psiquiatra Kátia Pegos. Foto: divulgação
“Crianças e adolescentes com traços agressivos precisam ser observados e acompanhados. Ignorar sinais é permitir que a violência escale”, diz a psiquiatra Kátia Pegos. Foto: divulgação

Um dado citado pela especialista é contundente: em 81% dos lares onde há violência contra crianças, também existe violência contra animais. O elo é simbólico mas concreto: vítimas frágeis, incapazes de se defender ou denunciar, tornam-se alvos preferenciais. “Quando uma sociedade falha em proteger os mais frágeis — animais, crianças, idosos — ela cria um ambiente inseguro para todos. Hoje são eles. Amanhã, qualquer um de nós”, resume Kátia. Outro ponto central levantado é o papel da família. Para ela, proteger não é acobertar. “Responsabilizar também é uma forma de amor. Dar limites pode prevenir um mal maior”, afirma.


A psiquiatra lembra que o cérebro humano — especialmente o lobo frontal, ligado ao julgamento moral e ao controle de impulsos — só atinge maturidade plena por volta dos 24 anos. Isso explica a imaturidade emocional, mas não justifica atos de crueldade extrema. “Crianças e adolescentes com traços agressivos precisam ser observados e acompanhados. Ignorar esses sinais é permitir que a violência escale”. A psicoterapeuta Renata Roma, que vive e atende em Toronto (Canadá) e também realiza atendimentos online no Brasil, reforça esse olhar clínico. Para ela, independentemente da classe social, há fatores recorrentes nesses casos: dificuldade de empatia, problemas na regulação emocional, ausência de limites claros e falta de modelos afetivos confiáveis.


“Frustração, raiva e agressividade acabam virando formas de expressão quando o jovem não aprende a reconhecer e elaborar emoções”, explica. Na avaliação clínica, o vínculo descrito pela “Teoria do Elo” aparece de forma clara. “Muitas vezes, a pessoa fala primeiro da violência contra o animal antes de conseguir falar da violência que ela mesma sofre”, diz. Segundo Renata, os animais podem ser usados como forma de coerção — por meio de tortura, ameaça, abandono — em lares marcados por agressões. “Crianças tendem a normalizar o que veem, sobretudo quando a violência parte de figuras admiradas”, diz a psicoterapeuta.


“Muitas vezes, o paciente fala primeiro da violência contra o animal antes de conseguir falar da violência que ele mesmo sofre”, diz a psicoterapeuta Renata Roma. Foto: Jonatas Teixeira
“Muitas vezes, o paciente fala primeiro da violência contra o animal antes de conseguir falar da violência que ele mesmo sofre”, diz a psicoterapeuta Renata Roma. Foto: Jonatas Teixeira

Entre adolescentes de classes altas, ela chama atenção para um componente delicado: o aprendizado do privilégio como licença. “Se o jovem cresce observando o uso de poder nas relações, pode entender que agressão é um caminho para conseguir o que quer”. Quando adultos minimizam ou encobrem, a mensagem se torna ainda mais perigosa. “Sem consequência, o comportamento tende a se repetir”, diz. O ambiente digital agrava o quadro, ao fortalecer identidades coletivas em desafios e submundos virtuais onde a violência é explícita. Para Renata, a prevenção exige educação emocional integrada ao currí-culo escolar, além de uma rede de proteção.


E faz um alerta ético: “O animal merece cuidado por ele mesmo. É um ser senciente”. Especialista em luto por animais, ela lembra que esse vínculo ainda é subestimado até na saúde mental, apesar de dizer muito sobre quem somos. Além disso, médicos-veterinários, muitas vezes, são a porta de entrada para identificar agressões, mas nem sempre sabem a quem recorrer. Renata concorda e defende programas estruturados de educação emocional e empatia nas escolas: não ações pontuais, mas conteúdos integrados ao currículo, além de políticas públicas que conectem proteção animal e proteção humana.


Os números ajudam a dimensionar o problema, ainda que não revelem toda a sua extensão. O Brasil registrou, em 2025, uma média de 13 novos casos de maus-tratos a animais por dia, somando 4.919 ocorrências judiciais ao longo do ano, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O volume representa um aumento de cerca de 20% em relação a 2024 e uma alta de aproximadamente 1.400% desde 2021. No entanto, especialistas alertam para a subnotificação crônica, já que muitos casos não são registrados . Seja pela falta de conhecimento ou pela ausência de um canal nacional, centralizado e acessível de denúncias. Essa lacuna motivou uma mobilização inédita. O influenciador Felca lançou uma petição online que já reúne mais de 750 mil assinaturas, pedindo a criação de um canal oficial unificado para denúncias de maus-tratos a animais no Brasil.


“A violência tem fonte e ela é social”, afirma a psicóloga Michelle Silva. Foto: divulgação
“A violência tem fonte e ela é social”, afirma a psicóloga Michelle Silva. Foto: divulgação

Embora o caso do cãozinho Orelha envolva adolescentes de classe alta, as especialistas reforçam: a violência não é exclusividade de um território social. Ela muda de forma e “embalagem”, mas permanece. Na análise da psicóloga Michelle Silva, o fato precisa ser tratado com cuidado para não se transformar em tribunal público, especialmente quando há menores envolvidos. Ao ampliar o foco, ela aponta um cenário global: acesso fácil a conteúdos violentos, falta de mediação adulta e uma cultura que transforma a violência em entretenimento. A psicóloga chama atenção para a naturalização da chamada “pornografia da violência” em produtos culturais, enquanto a sociedade ergue barreiras rígidas a outros temas. O antídoto, em sua opinião, é a mediação: “Presença, conversa e limites claros. Não se trata de isolar, mas de traduzir o mundo para crianças e adolescentes”, diz.


Michelle rejeita explicações simplistas baseadas em “maldade intrínseca”. “A violência tem fonte e ela é social”, afirma. Em sua análise, a crueldade é escrita por uma cultura que naturaliza o horror, terceiriza vínculos e reduz a vida — inclusive a dos filhos — a um projeto de desempenho. Para a psicóloga, a indignação pode gerar mudanças, mas desde que não reproduza o terror que condena.



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