Menos caricatura, mais identidade
- Revista Viva Nova Lima

- há 5 dias
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Especialistas apontam que, mais do que aparência, a estética caminha para um novo tempo em 2026, no qual a valorização da identidade supera os modismos e redefine os padrões de beleza

Por: Daniela Costa
A estética mudou, e mudou rápido. Se, há pouco tempo, as conversas eram dominadas por transformações radicais e procedimentos chamativos, hoje um novo movimento começa a ganhar força nos consultórios: o da naturalidade, da identidade preservada e do cuidado integrado.
A tendência nasceu de um incômodo cada vez mais comum e difícil de ignorar. Em meio a filtros, rostos padronizados e corpos idealizados em padrões irreais que viralizam nas redes sociais, cresce a busca por um caminho na contramão: uma maneira de cuidar da aparência, mas respeitando as individualidades de cada um.
Para compreender essa transição, a Revista Viva Nova Lima conversou com especialistas que atuam em diferentes frentes da saúde e da estética: cirurgiões plásticos, dermatologistas, cirurgião-dentista e biomédicos.
Apesar das trajetórias distintas, todos convergem em um ponto: a estética, hoje, vai muito além da aparência e as tendências que se desenham para 2026 indicam uma abordagem mais consciente, em que o objetivo é valorizar pessoas e não fortalecer modismos.

A SUA MELHOR VERSÃO
A estética deixou de ser um tema restrito a poucas especialidades e hoje envolve diferentes áreas da saúde. Entre elas está a odontologia, cuja atuação na face ainda gera dúvidas em muitos pacientes. Com consultório no bairro Vila da Serra, em Nova Lima, o cirurgião-dentista Rusemberg Oliveira esclarece: sim, a especialidade pode atuar na área. Segundo ele, essa relação não é novidade. “O cirurgião-dentista, principalmente o bucomaxilofacial, é especialista em cirurgias da face”, explica. Nos hospitais, ressalta, quem reconstrói faces há décadas em casos de traumas — como acidentes graves atendidos no Hospital João XXIII em Belo Horizonte — é este profissional.
O que mudou, de acordo com Rusenberg, foi a popularização do tema “estética facial” a partir de 2015, quando procedimentos minimamente invasivos como botox, preenchimentos, fios e bioestimuladores passaram a ganhar terreno, impulsionados pela força das redes sociais. “Desde 2025 somos a liderança esmagadora no consumo desses insumos no Brasil”, afirma o cirurgião. O aumento da demanda, porém, também trouxe efeitos colaterais: mais excessos, erros e banalização de técnicas e substâncias. Ainda assim, o especialista ressalta que há um fator que distorce a percepção do público. Na prática do consultório, a grande maioria dos pacientes busca resultados discretos, o que raramente ganha visibilidade. “Quem faz de maneira harmônica e natural não vira fofoca, não posta, os amigos nem sabem”, explica.
Já a minoria que prefere uma estética mais marcante costuma chamar mais atenção e aparecer com frequência, o que acaba gerando a impressão de que esse é o padrão predominante. Rusenberg também traz um ponto sensível: existe público para tudo. “Tem paciente que chega e fala que se não for pra causar, não vale a pena”. Nesse cenário, o limite do profissional, segundo ele, não é o gosto. “Para mim é até o ponto que não prejudique a saúde e a integridade física do meu paciente. Se é só questão de gosto e está dentro do seguro, tudo certo”.
A frase que, para ele, define harmonização facial cabe em uma só linha: “É você na sua melhor versão”. O objetivo, diz, é realçar o que a pessoa já tem de positivo e “rejuvenescer quem você era há 5 ou 10 anos ”, com suavidade e aparência descansada. Ao mesmo tempo, Rusenberg também quebra um tabu: procedimentos podem, sim, construir volumes que a pessoa não tinha como queixo e mandíbula, desde que com segurança e critério. “Por que colocar silicone é visto como algo natural, mas corrigir o queixo ainda gera questionamentos?”, provoca.
Em sua visão, se há um motivo técnico para o boom da harmonização facial, é um só: a reversibilidade. “Você altera o rosto sem corte, sem antibiótico, sem repouso e sem risco cirúrgico. E se não gostar, pode voltar atrás”. Um diferencial que, segundo o cirugião-dentista, mudou o jogo no mercado de beleza e estética.

MINIMALISMO ESTÉTICO
À frente da Minimal Clinic, no bairro Belvedere, o biomédico Matheus Castro observa uma mudança clara de comportamento. “A ideia nunca foi virar outra pessoa, mas valorizar o que já existe. Ou seja, menos transformação e mais equilíbrio”, afirma. Segundo ele, cresce a procura por tratamentos com abordagem mais biológica e regenerativa, além de protocolos integrativos que consideram fatores como alimentação, qualidade do sono, saúde intestinal e estilo de vida do paciente.
Em seu consultório, a proposta é utilizar um conjunto de técnicas que envolvem respeito às proporções e equilíbrio facial, com foco em resgatar o bem-estar e a naturalidade. Na prática, essa abordagem se apoia em um conceito simples: o minimalismo. “Hoje trabalhamos muito nessa ideia porque os pacientes já perceberam que exageros não fazem sentido. A necessidade agora é preservar as estruturas, não modificá-las”. Entre os receios mais comuns, o biomédico destaca um que escuta com frequência no consultório: “Tenho pavor de ácido hialurônico porque deixa o rosto cheio”. Ele, no entanto, procura esclarecer essa percepção. “Essa substância, assim como outras, é uma grande aliada do rejuvenescimento e da hidratação, desde que indicada, planejada e aplicada de forma personalizada, respeitando as características de cada rosto”.
Na avaliação do especialista, parte das distorções está ligada ao imediatismo, especialmente entre pacientes que buscam resultados rápidos e acabam recorrendo diretamente a volume e preenchimento. Muitas vezes, explica, o caminho mais adequado começa pela melhoria da qualidade da pele, da textura e pelo estímulo celular, em um processo progressivo e mais natural. Como a abordagem reúne diferentes técnicas, a durabilidade varia. Em média, os procedimentos duram de 12 a 24 meses: a toxina botulínica exige manutenção anual, enquanto bioestimuladores de colágeno, por exemplo, têm ciclos mais longos, com revisões periódicas.
O ponto, diz Matheus, é entender que ninguém “para de envelhecer”. “A ideia não é paralisar o tempo, mas envelhecer de maneira saudável e bonita de se ver”, diz ele. E reforça uma tendência importante: “Hoje, a estética tem sido mais preventiva do que corretiva. O objetivo é gerenciar o envelhecimento, segurando perdas de colágeno e viço antes que as queixas se tornem mais difíceis de tratar”.
O problema, no entanto, surge quando o procedimento é realizado por profissionais sem a qualificação técnica adequada. “As pessoas banalizam muito, vão por preço e se esquecem do risco”, diz. E reforça: “Estética e cirurgia plástica não competem, são áreas que se complementam.

BELEZA CONSICIENTE
Em um cenário em que rostos perfeitos e transformações rápidas se multiplicam nas redes sociais, a médica dermatologista Talita Rodrigues de Oliveira, que atua nas áreas clínica e estética no bairro Vila da Serra, observa de perto uma mudança importante na maneira como as pessoas enxergam a própria imagem, e avalia os desafios que esse movimento traz para a medicina. Isso porque, é cada vez mais comum receber pacientes influenciados por padrões irreais, filtros e comparações constantes. “Muitas vezes eles chegam com referências que não dialogam com a própria anatomia ou com expectativas que precisam ser ajustadas com cuidado e responsabilidade”, explica ela.
Foi a partir dessa experiência cotidiana que a médica passou a defender com ainda mais convicção um conceito que orienta sua prática: a beleza consciente. A estética, diz Dra Talita, não deve apagar características individuais nem impor padrões. O foco, afirma, deve ser o cuidado e o respeito à identidade de cada pessoa. Em sua rotina profissional, o atendimento vai além da avaliação técnica. A dermatologista busca compreender o paciente de forma ampla. Sua história, expectativas e até a relação emocional com a própria aparência.
Para ela, um bom resultado é aquele que transmite naturalidade e harmonia, sem evidenciar o procedimento. “Quando o cuidado é bem conduzido, o resultado não chama atenção para a técnica”, resume. Nesse contexto, o papel do médico envolve orientação, acolhimento e, em muitos casos, a decisão de não realizar uma intervenção. “Dizer não também faz parte do cuidado”.
A médica destaca ainda que a banalização dos procedimentos estéticos é uma das principais preocupações atuais. Técnicas que exigem conhecimento aprofundado e responsabilidade, afirma, têm sido frequentemente tratadas como simples serviços de consumo. Fora isso, a estética não substitui hábitos saudáveis.
“Proteção solar, rotina adequada de cuidados com a pele, alimentação equilibrada, sono de qualidade e atenção à saúde emocional são a base do autocuidado”. E destaca que é preciso lembrar que envelhecer é um processo natural e humano. “O meu trabalho não é lutar contra o tempo, mas ajudar as pessoas a atravessá-lo da melhor maneira possível”.

MAIS NATURALIDADE
Especialista em contorno corporal e cirurgias de mama, o cirurgião plástico Fernando Lamana, da Clínica Alvorar, no bairro Belvedere, revela que procedimentos como lipoaspiração, abdominoplastia e cirurgias de mama estão entre os procedimentos mais procurados pelos pacientes em seu consultório, especialmente por mulheres que passaram por gestações ou por processos de emagrecimento significativo.
Segundo o médico, o perfil das pacientes revela um dado interessante: a maioria chega ao consultório em um momento de vida mais maduro e decidido. “São, em grande parte, mulheres que já tiveram filhos e que buscam recuperar o contorno corporal ou tratar a flacidez. Por isso, normalmente são decisões muito conscientes”, afirma. A evolução das técnicas, diz Lamana, tem permitido intervenções menos invasivas e resultados mais naturais. Equipamentos que utilizam calor controlado sob a pele, por exemplo, ajudam no tratamento da flacidez e ampliam as possibilidades terapêuticas.
O impacto, no entanto, não é apenas físico: é também emocional. Essa percepção ganhou ainda mais significado após uma experiência pessoal do cirurgião: depois de perder mais de 30 quilos, ele vivenciou o que muitos pacientes descrevem. “Foi quando eu entendi o impacto real que sentir-se bem com a própria imagem pode ter na disposição, na autoestima e na forma de encarar a vida”, relata. Apesar dos avanços e da demanda crescente na área, ele ressalta que a decisão por uma cirurgia deve sempre ser tomada com cautela. O papel do médico, afirma, é avaliar cuidadosamente cada caso e orientar o paciente com sinceridade.
“Nem tudo o que a pessoa deseja é o que realmente vale a pena fazer. É preciso equi-librar benefícios, riscos e expectativas”, explica. Em situações em que a mudança esperada é pequena, ele costuma indicar tratamentos dermatológicos menos invasivos. Com base em sua experiência, o Dr. Fernando Lamana acredita que a integração entre a cirurgia plástica, a dermatologia, a fisioterapia e a nutrição tende a se tornar cada vez mais comum, permitindo tratamentos mais completos e resultados mais duradouros. “Hoje, o cuidado é cada vez mais multidisciplinar. A cirurgia é apenas uma etapa de um processo maior, que inclui recuperação, cuidados com a pele e acompanhamento da saúde como um todo”, afirma.

A DIDÁTCA DA HARMONIZAÇÃO FACIAL
Professor e especialista em biomedicina estética, Thiago Martins apresenta uma visão didática sobre a harmonização facial. Para ele, harmonizar não significa aplicar uma técnica isolada, mas buscar o equilíbrio entre os diferentes terços da face e, muitas vezes, também do pescoço e do colo, regiões que frequentemente revelam hábitos e sinais do envelhecimento. Quando o assunto é exagero, ele direciona o foco para o ponto que, em sua opinião, deveria ser central: a responsabilidade do profissional. “Sou conhecido por essa postura: se eu não achar que você precisa fazer, eu não faço”, afirma.
Segundo ele, essa conduta ajuda a construir confiança, embora, em alguns casos, possa frustrar pacientes que chegam decididos a realizar intervenções que, em sua avaliação, não são necessárias. A lógica, diz ele, é a da individualidade. “A boca de fulano é do fulano”, afirma, ao criticar as comparações constantes estimuladas pelas redes sociais. Thiago conta que evita publicar imagens de “antes e depois”, justamente porque o resultado depende de fatores que não aparecem na foto, como a rotina de cuidados de cada paciente. “Minha cliente também faz parte do resultado. Se a pessoa quer o mesmo efeito sem mudar nada, depois vai dizer que eu não entreguei o que foi mostrado”, observa.
Em vez disso, o biomédico adota uma abordagem que considera um diferencial: construir o procedimento junto com o cliente. Na harmonização labial, por exempo, realiza aplicações graduais, com pausas para que a pessoa observe no espelho a diferença entre um lado e outro e participe da decisão sobre até onde avançar, reduzindo o risco de excessos e arrependimentos. Em alguns casos, diz o especialista, o excesso de busca por mudanças pode sinalizar baixa autoestima. Ocasiões em que orienta: “O dinheiro que você vai gastar comigo, usa para pagar uma terapia”. Ao mesmo tempo, ele reconhece o impacto que pequenas mudanças podem ter na qualidade de vida das pessoas.
A lógica, para Thiago, é que estética não é “fiz uma vez e acabou”. Envolve skin care, estilo de vida e a visão “de dentro para fora”: intestino, disbiose, probióticos, alimentação e saúde celular influenciam a pele e o envelhecimento. O segredo, para ele, não é parar de envelhecer, mas envelhecer sem a obrigação social de sofrer com rugas e flacidez como se isso fosse regra.

LONGE DOS EXCESSOS
O dermatologista Hugo Moreira, da Clínica Revittá, no bairro de Lourdes, reforça um ponto essencial: dermatologia é, antes de tudo, saúde. “A dermatologia estuda pele, cabelo e unhas. O câncer de pele é o tipo mais comum no mundo”, afirma, explicando que pacientes que chegam pela estética sempre passam por avaliação clínica. A men-sagem é simples, mas necessária: pele é órgão - o maior do corpo humano - e órgão não se trata apenas com “tendência”.
O médico tem observado uma mudança importante no perfil dos tratamentos: cresce a procura por qualidade da pele — textura, viço, homogeneidade, estímulo de colágeno — e não apenas por volume. E alerta para os riscos do excesso, apontando a tendência de 2026: naturalidade com ciência, ética e identidade preservada. “Naturalidade não significa ausência de tratamento. Significa bom senso, respeito ao tempo e um plano coerente. Resultados imediatos demais tendem a caminhar para o exagero”, explica. No consultório, Dr. Hugo afirma que uma das etapas mais importantes é alinhar expecta-tivas, já que nem sempre o que o paciente pede é o que realmente faz sentido.
Ele observa que referências de redes sociais e de pessoas próximas podem criar um “modelo” que não se aplica a todos. “É fundamental estabelecer o que é real e o que não é real”, pontua, destacando o papel do médico como alguém que orienta, não apenas executa. Para ele, o futuro da estética é menos sobre “mudar” e mais sobre realçar. “A pa-dronização não favorece todos os tipos de rosto”, diz o médico.
Nesse cenário, entram tecnologias e estratégias combinadas, como o uso de bioes-timuadores de colágeno e aparelhos que auxiliam no rejuvenescimento com mais suti-leza. Entre os procedimentos mais comuns no mundo atualmente, ele destaca a toxina botulínica, considerada o tratamento estético não cirúrgico mais realizado globalmente. O resultado costuma aparecer entre sete e quatorze dias, e a indicação é frequente a partir dos 25 a 30 anos, especialmente com foco preventivo no surgimento de rugas e linhas de expressão.
O dermatologista, contudo, faz uma ressalva importante, e rara em um mercado que muitas vezes premia o “mais”. Doses excessivas, aplicadas de forma muito forte e em intervalos curtos, podem acelerar a atrofia muscular e até contribuir para queda da sobrancelha ao longo do tempo. “Nem sempre uma testa extremamente congelada é mais saudável”, explica, defendendo equilíbrio e planejamento.
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