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Paisagem de fronteira

De um lado, um mar de montanhas. Do outro, o sertão que se abre. Essa é a paisagem. Não apenas um recorte geográfico, mas uma forma de pensamento



Coluna | Mineiridade


Nova Lima, assentada sob a Cordilheira do Espinhaço e voltada para o interior que se alonga, vive nesse limiar onde Minas aprende a ser o que é.


A serra ensina a conter. Ela organiza o tempo, pede cuidado, impõe limites que não são obstáculos, mas método.


O sertão, ao contrário, chama para a travessia. É o espaço da invenção, da adaptação, do avanço sem garantias.


Minas nasce do diálogo entre essas duas forças: nem pura expansão, nem puro recolhimento. Um equilíbrio delicado, construído no “entre”.


No século XVIII, o ouro deu densidade histórica a essa paisagem de fronteira. Não apenas como riqueza, mas como disciplina, trabalho e permanência.


Nova Lima se formou ali, entre a técnica da mineração e o horizonte aberto do sertão, aprendendo a transformar tensão em convivência.


Há na cidade tricentenária um símbolo silencioso dessa sabedoria: o Bicame. Um traço de água conduzida com precisão, ligando natureza e engenho humano.


Mais que uma estrutura, ele traduz um modo de existir: o fluxo que respeita a forma, o movimento que aceita o tempo. Em Minas, nada se sustenta sem direção — e nada permanece sem cuidado.


A literatura mineira captou como poucos essa condição. Drummond viu na serra a consciência do tempo, a pedra que pensa.


Adélia revelou que o interior — da terra e da alma — é lugar de revelação, não de ausência. Ambos compreenderam que Minas se constrói no intervalo entre o mundo e o silêncio.


No ‘Manual da Mineiridade’, meu próximo livro, parto dessas paisagens e desses gestos para pensar Minas não como identidade fixa, mas como modo de estar no mundo. O lançamento está previsto para este mês abril.


Nova Lima é um desses lugares-lição. Em tempos de aceleração, ela nos lembra que não é preciso escolher um único mundo. É no encontro entre eles — entre montanha e sertão — que Minas continua a nascer.





Leônidas Oliveira é PhD, secretário de Estado e escreve sobre território, cultura, arquitetura e modos de habitar









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