Quem você veste?
Entre imagem, estilo e autoconhecimento, construir uma identidade autêntica significa ir muito além das tendências

Antes de escolher a cor que mais favorece o rosto, encontrar o corte ideal de uma roupa ou seguir a tendência que tomou conta das vitrines, talvez seja melhor começar por perguntas aparentemente simples: quem é você e o que deseja comunicar? É a partir dessas respostas que a estilista e estrategista de posicionamento de imagem, Grazi Coe-lho, desenvolve um trabalho que busca ir além da estética. Para ela, a roupa pode co-municar autoridade, criatividade, sensualidade, elegância ou informalidade. Mas, quando a imagem construída está distante demais de quem a pessoa realmente é, o que deveria funcionar como instrumento de expressão pode se transformar em uma espécie de personagem difícil de sustentar.
Entregar uma cartela de cores e indicar formatos de roupas é apenas parte de um pro-cesso que precisa considerar personalidade, objetivos e contexto de vida.
“Só consigo compreender o estilo de uma pessoa quando converso com ela e conheço o seu universo”, diz.
É nessa investigação que Grazi procura identificar pontos fortes, inseguranças e expectativas para, então, orientar escolhas capazes de permanecer no dia a dia. Em sua visão, quando a consultoria se limita às cores e a fórmulas prontas, existe o risco de o entusiasmo inicial desaparecer rapidamente.
Tendência não é obrigação
Em tempos de redes sociais, microtendências e novidades que surgem quase diariamente, uma das principais armadilhas, segundo Grazi, é confundir estar na moda com vestir tudo aquilo que está em alta. “A tendência serve apenas como um norte”, destaca. Isso significa observar o que aparece nas passarelas, vitrines e redes sociais e decidir o que realmente conversa com o próprio estilo. Se o marrom é a cor da temporada, por exemplo, isso não significa que todos precisem incorporá-lo ao guarda-roupa. “O primeiro passo é saber se você gosta da tendência e se ela combina com a sua personalidade”.
O mesmo raciocínio vale para os chamados arquétipos, códigos visuais e fórmulas que prometem transmitir determinadas características. A tentativa de parecer mais poderosa, sensual ou sofisticada pode produzir justamente o efeito contrário quando não existe identificação verdadeira com aquela linguagem. Por isso, a estiliista insiste em um conceito que atravessa toda a sua visão sobre moda: autenticidade precisa vir acompanhada de coerência.

“O empoderamento realmente vem a partir do autoconhe-cimento. A partir dele, você vai encontrar a sua roupa, o seu estilo e descobrir quem você é”.
Ao acompanhar clientes e observar o comportamento nas redes, Grazi percebeu outro fenômeno: muitas vezes, a roupa deixa de ser apenas expressão e passa a funcionar como uma “armadura”. A busca por likes, pertencimento e aprovação pode levar alguém a construir uma imagem muito diferente de sua personalidade ou até de sua realidade financeira. O problema se torna ainda maior quando essa persona ultrapassa o ambiente profissional ou digital e passa a determinar a vida cotidiana. Grazi não condena a construção estratégica de uma imagem. Pelo contrário: considera perfeitamente possível criar uma persona profissional para comunicar um serviço, uma empresa ou um produto. O cuidado está em compreender onde termina essa representação.
“Você pode construir uma persona com aquilo que oferece, com o seu serviço ou produto. Mas não precisa levar essa persona para a sua vida”.
Na avaliação da estilista, tentar sustentar permanentemente uma imagem criada para as redes pode gerar pressão psicológica e até estimular gastos incompatíveis com a realidade de quem busca reproduzir determinados padrões de consumo e status. Ela mesma faz questão de preservar essa separação. Trabalhar com moda não significa estar produzida o tempo inteiro. Há momentos de maquiagem, produção e estratégia; em outros, Grazi prefere simplesmente viver sem a obrigação de sustentar a postura profissional o tempo todo. Talvez esteja justamente aí uma das maiores liberdades proporcionadas pelo autoconhecimento: saber que não é preciso estar em performance o tempo todo.

Marca não é sinônimo de elegância
Outra ideia que a estilista procura desconstruir é a associação automática entre vestir-se bem e consumir marcas caras. Para ela, uma pessoa que conhece o próprio corpo e estilo consegue encontrar boas peças, inclusive, em lojas populares e construir produ-ções interessantes sem comprometer o orçamento. Do outro lado, uma etiqueta famosa não é capaz de salvar uma escolha que não dialogue com quem veste.
“A marca hoje oferece status. Mas a pergunta é: você está comprando uma roupa de qualidade ou apenas status”?
A democratização da moda, nesse sentido, passa pela capacidade de escolher. Qualidade, acabamento, modelagem e possibilidade de combinar uma mesma peça de diferentes maneiras podem ser critérios muito mais relevantes do que o nome estampado na etiqueta. Essa lógica se conecta a outra questão que Grazi considera importante: roupa não é descartável. Ela defende criatividade na composição do guarda-roupa e vê nos brechós uma alternativa não apenas sustentável, mas também interessante para quem busca identidade. Em sua visão, esses espaços muitas vezes preservam peças com construções e desenhos que se perderam em um mercado cada vez mais padronizado.
A crítica vem de quem acompanhou de perto as transformações da indústria. Grazi lembra que participou de um período em que estilistas e marcas mineiras apostavam fortemente na criação autoral e conta ter ajudado a introduzir a calça saruel em cole-ções no mercado. Com o tempo, diz ter se desencantado com parte da criação justa-mente pela sensação de repetição.
“As marcas tinham uma identidade que foi se perdendo. Hoje muita coisa caiu na mesmice”.
A ideia de “bom senso” aparece diversas vezes em sua narrativa. Não como um conjunto rígido de proibições relacionadas a peso, idade ou tipo físico, mas como consciência sobre o corpo, o ambiente e a mensagem que se deseja transmitir. Sensualidade, por exemplo, não precisa desaparecer para dar lugar à elegância. “Às vezes, basta um detalhe. Não existe nece-sidade de deixar tudo explícito”. Da mesma forma, acessórios excessivamente grandes, roupas muito apertadas, curtas ou volumosas podem competir com a mensagem que a pessoa pretende transmitir. Para Grazi, uma máxima continua válida: “menos é mais”.
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