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Amor maior

 A pedagoga e influenciadora Ângela Dariva revela como transformou a própria vivência — como mãe atípica e esposa de artista — em uma trajetória marcada por superação, determinação e acolhimento


Nascida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, mas mineira de coração, Ângela construiu entre Belo Horizonte e Nova Lima uma trajetória marcada por reinvenção, sensibilidade e coragem. Foto: Bruno Hannelt
Nascida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, mas mineira de coração, Ângela construiu entre Belo Horizonte e Nova Lima uma trajetória marcada por reinvenção, sensibilidade e coragem. Foto: Bruno Hannelt

Por: Daniela Costa


Na canção Amor Maior, da banda Jota Quest, a letra revela: “É preciso amar direito, um amor de qualquer jeito / ser amor a qualquer hora, ser amor de corpo inteiro / amor de dentro pra fora, amor que eu desconheço”. A composição traduz, com sensibilidade, a essência de um amor que ultrapassa medidas, e reflete com precisão a história de entrega, força e determinação de Ângela Dariva, 51 anos. Nascida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, mas mineira de coração, a pedagoga e influencer construiu entre Belo Horizonte e Nova Lima uma trajetória marcada por reinvenção, sensibilidade e coragem. 


Há 25 anos na região — para onde se mudou após o casamento com o músico Marco Túlio Lara, do Jota Quest — trocou a cidade natal, os vínculos e a vida que conhecia por um recomeço do zero. Foi em Minas Gerais também que viveu algumas de suas experiências mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, mais transformadoras. Mãe de João Marcos, de 21 anos, e Théo, de 15, ela carrega uma história atravessada por perdas, silêncios e recomeços mas, acima de tudo, guiada pelo amor de filha, mãe, esposa e mulher. 


Ângela fala abertamente sobre a infância no Sul do país, o luto pela morte do pai, os desafios enfrentados no casamento, a maternidade marcada por episódios delicados de saúde e o aprendizado profundo que veio com a chegada do filho mais novo, diagnosticado com síndrome de Down ainda na gestação. Filha caçula de uma família grande, Ângela cresceu cercada pelas irmãs e por uma infância que, apesar das dificuldades, guarda na memória como feliz e cheia de liberdade. “Foi uma infância muito saudável, divertida, com muita aventura”, recorda. Ao mesmo tempo, desde muito pequena, conviveu com a fragilidade do pai, que enfrentava sérios problemas cardíacos e exigia cuidados constantes da mãe.


A dor mais profunda veio pouco antes da vida adulta. Três dias antes de completar 18 anos, Ângela perdeu o pai. O impacto não foi imediato. Em meio à reorganização emo-cional e financeira da família, ela não conseguiu viver o luto necessário naquele momento. A dor, adiada, cobrou seu preço um ano depois, quando veio a depressão. “Eu não consegui chorar no velório, não consegui sofrer aquela dor na hora certa. Um ano depois, meu corpo e minha mente responderam”, conta. Os sintomas mais evidentes foram o emagrecimento, a queda de cabelo e um profundo desânimo que a consumia aos poucos. Foram cerca de um ano e meio de tratamento, entre fragilidade física e emocional, até compreender a importância de se cuidar.


 Foi a partir da história com Théo que Ângela decidiu abrir espaço para compartilhar sua vida com o marido, Marco Túlio, e o filho nas redes sociais. "O Instagram nasceu da vontade de mostrar os bastidores da maternidade atípica, os desafios, os estímulos, as conquistas diárias e a importância da inclusão", diz ela. Foto: arquivo pessoal
 Foi a partir da história com Théo que Ângela decidiu abrir espaço para compartilhar sua vida com o marido, Marco Túlio, e o filho nas redes sociais. "O Instagram nasceu da vontade de mostrar os bastidores da maternidade atípica, os desafios, os estímulos, as conquistas diárias e a importância da inclusão", diz ela. Foto: arquivo pessoal

Hoje, ela fala sem receios sobre saúde mental e defende que o sofrimento não deve ser escondido. “Não tenham medo de viver o luto. É importante viver a dor na hora certa”, afirma. Antes mesmo de se tornar conhecida nas redes sociais, Ângela já chamava atenção por sua beleza. Na juventude, participou de concursos, recebeu convite para ser rainha de carnaval e até foi observada para integrar o grupo das Paquitas, de Xuxa. O convite, no entanto, não se concretizou por decisão do pai. Histórias dessa fase, contadas com humor, ajudam a compor a leveza com que ela enxerga a própria trajetória.


Foi também em Santa Maria que conheceu Marco Túlio Lara, guitarrista do Jota Quest. O encontro aconteceu em um bar universitário, em meio a amigas, paqueras e coincidências. Depois de um breve namoro, os dois se afastaram por um período de dois anos, até retomarem a relação em um momento mais maduro da vida. No fim de 2000, se casaram. Pouco tempo depois, Ângela deixou o Sul e veio para Minas Gerais. A mudança, embora representasse uma nova etapa, foi acompanhada por um sentimento intenso de solidão. Longe da família, sem vínculos sociais e com o marido em rotina constante de viagens, ela precisou aprender a reconstruir a própria vida em outro estado.


Aos poucos, foi vencendo medos cotidianos, criando autonomia e se fortalecendo emocionalmente. “Eu sempre digo: dê um passinho de cada vez, mas dê um passinho. Quando cheguei aqui não tinha coragem nem de dirigir do Vila da Serra ao BH Shopping. Fui muitas vezes a pé para me familiarizar com o caminho”, revela. A maternidade também trouxe desafios marcantes. Na primeira gestação, de João Marcos, Ângela desenvolveu um quadro grave relacionado à pressão arterial e ao fluxo sanguíneo para o bebê. O parto precisou ser antecipado, e o filho nasceu prematuro, com apenas 1,5 quilo. Depois do susto, ela transformou o medo em presença, visitando o filho na UTI neonatal com música, dança e afeto. “Eu cantava para ele e o pessoal do hospital achava a maior graça”, brinca.


Anos depois, entre a primeira e a segunda gestação, viveu quatro perdas gestacionais. Foi nesse processo que recebeu o diagnóstico de trombofilia, condição que exigiria acompanhamento rigoroso em uma futura gravidez. Quando engravidou de Théo, passou a tomar medicação diariamente para evitar complicações. Ainda assim, no quinto para o sexto mês de gestação, exames apontaram uma alteração cardíaca no bebê. O momento mais duro veio junto com a suspeita de síndrome de Down. Ângela relembra com dor a forma como a notícia foi conduzida por um médico, que chegou a sugerir a interrupção da gestação. “Ele disse, sem rodeios, ao Marco Túlio: ‘eu não gostaria de ter um filho com síndrome de Down, e você?’. Para nós, até aquele momento, o bebê apresentava, supostamente, apenas um problema cardíaco”.


Antes mesmo de se tornar conhecida nas redes sociais, Ângela já chamava atenção por sua beleza. Na juventude, em Santa Maria (RS) participou de concursos, recebeu convite para ser rainha de carnaval e até foi observada para integrar o grupo das Paquitas, de Xuxa. Foto: arquivo pessoal
Antes mesmo de se tornar conhecida nas redes sociais, Ângela já chamava atenção por sua beleza. Na juventude, em Santa Maria (RS) participou de concursos, recebeu convite para ser rainha de carnaval e até foi observada para integrar o grupo das Paquitas, de Xuxa. Foto: arquivo pessoal

Em choque, ela e o marido viveram dias difíceis, marcados por medo, luto e silêncio. “O impacto foi tão grande que Marco Túlio chegou a dizer que talvez o nosso casamento não resistisse àquilo. E eu respondi que, se fosse assim, então ele já estaria terminado. Foram 40 dias de silêncio entre nós”. Mais tarde, com o apoio de outro profissional, encontraram acolhimento e uma nova forma de compreender a chegada do filho. “Ele nos disse que estávamos prestes a receber um presente”, recorda. Após o nascimento, Théo ainda precisou passar por uma cirurgia cardíaca aos quatro meses de vida. Para Ângela, aquele foi um dos dias mais difíceis de sua existência. “Eu passei dos 5 aos 18 anos preocupada com o coração do meu pai e teria poucos meses para resolver o mesmo problema no meu filho”.


A recuperação, no entanto, foi positiva, e desde então o menino se tornou, segundo ela, uma fonte diária de aprendizado. “Ele recebe tanto amor que sai distribuindo por onde passa. É tão autoconfiante que nem se incomoda com bullying”, diz. Hoje, parte importante dessa vivência se conecta ao trabalho que Ângela realiza como embai-xadora do Instituto Mano Down, em Belo Horizonte. A instituição atende mais de 500 famílias e oferece apoio, acolhimento, estímulos para bebês, atividades para adolescentes e convivência social. Para ela, iniciativas assim são fundamentais, especialmente diante do alto custo que envolve o desenvolvimento e o acompa-nhamento de crianças com síndrome de Down. “Eu sei na pele o quanto é necessário e o quanto é caro. Por isso, acho importante dar esse retorno”, afirma.


“Ele recebe tanto amor que sai distribuindo por onde passa. É tão autoconfiante que nem se incomoda com bullying”, diz Ângela sobre Théo, o filho mais novo diagnosticado com síndrome de Down. Foto: arquivo pessoal
“Ele recebe tanto amor que sai distribuindo por onde passa. É tão autoconfiante que nem se incomoda com bullying”, diz Ângela sobre Théo, o filho mais novo diagnosticado com síndrome de Down. Foto: arquivo pessoal

Foi justamente a partir da história com Théo que Ângela decidiu abrir espaço para compartilhar sua vida nas redes sociais. O Instagram nasceu da vontade de mostrar os bastidores da maternidade atípica, os desafios, os estímulos, as conquistas do filho e a importância da inclusão. Com o tempo, o perfil se expandiu para outros temas que também fazem parte do seu universo: moda, autoestima, rotina, saúde mental, atividade física e maturidade. De forma natural e orgânica, sem buscar perfeição, Ângela foi conquistando seguidores e construindo uma presença digital pautada pela espontaneidade. Vaidosa, ela conta que recebe mensagens de mulheres que passaram a se cuidar mais, a se vestir com mais liberdade, a retomar a autoestima e a dar novos passos na vida depois de acompanhá-la. “Não precisa dar um passo grande, dê um passo pequenininho, mas dê um passo”, costuma dizer.


Ao falar sobre beleza e autocuidado, ela rejeita excessos e defende equilíbrio. Para Ângela, cuidar do corpo deve ser um gesto de respeito consigo mesma, e não uma prisão. Alimentação sem radicalismo, exercícios com regularidade e saúde mental em dia formam a base do seu bem-estar. Em dezembro de 2025, ela e o marido celebraram 25 anos de casamento e, após tantas lutas e conquistas, seguem se declarando nas redes sociais: “Eu escolho amar você todos os dias”, disse Ângela. Ela também fala com maturidade sobre o relacionamento, as fases difíceis e a construção diária do relacionamento. “Casamento é superação todos os dias”, resume. Mesmo convivendo com a exposição e com o assédio natural que ronda a vida pública do parceiro, Ângela escolhe olhar para a própria história com serenidade, inteligência emocional e verdade.


Em dezembro de 2025, Ângela e o marido, Marco Túlio, celebraram 25 anos de casamento ao lado dos filhos, Théo e João Marcos (ao centro). Foto: arquivo pessoal
Em dezembro de 2025, Ângela e o marido, Marco Túlio, celebraram 25 anos de casamento ao lado dos filhos, Théo e João Marcos (ao centro). Foto: arquivo pessoal

“Já houve situações em que mulheres famosas demonstraram interesse por ele na minha frente. Mas eu não teria por que brigar por isso. O problema seria se houvesse reciprocidade”, afirma. Ao final, sua trajetória revela muito mais do que a história de uma influenciadora, mãe atípica ou esposa de um músico conhecido. É o retrato de uma mulher que atravessou perdas, enfrentou medos profundos, acolheu o inesperado e transformou a própria vida em uma ponte capaz de inspirar outras pessoas a seguir em frente.


Síndrome de Down: informação, diagnóstico e apoio


O Dia Mundial da Síndrome de Down, celebrado em 21 de março, reforça a importância da inclusão, do respeito e da garantia de direitos às pessoas com a condição.


Dados no Brasil


  • Incidência: cerca de 1 a cada 700 nascimentos, segundo o Ministério da Saúde

  • Estimativa: entre 270 mil e 300 mil brasileiros com síndrome de Down


O que é


A síndrome de Down é uma condição genética, caracterizada pela trissomia do cromossomo 21 — e não uma doença.


Importância do diagnóstico e estímulo precoce


Especialistas destacam que o desenvolvimento da criança está diretamente ligado ao acompanhamento desde os primeiros anos de vida, com suporte de:


  • fisioterapia

  • fonoaudiologia

  • terapia ocupacional

  • psicologia


 Atendimento pelo SUS


 O acompanhamento é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD), com serviços concentrados nos:

  • Centros Especializados em Reabilitação (CER)

  • O acesso é feito, em geral, por encaminhamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS)


SAIBA COMO AJUDAR: Instituto Mano Down


Assista a entrevista completa em nosso canal no YouTube: @revistavivanovalima




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