Educadora avalia o que é a educação inclusiva
- Revista Viva Nova Lima

- 10 de jul.
- 7 min de leitura
Para Edna Roriz, a verdadeira inclusão na educação exige mudanças profundas na cultura escolar, nas práticas pedagógicas e na forma como a sociedade enxerga as diferenças

Recentemente, um suposto caso de injúria racial envolvendo uma criança de 10 anos dentro de uma instituição de ensino de alto padrão de Nova Lima reacendeu o debate sobre racismo, inclusão e convivência no ambiente escolar. Para a educadora Edna Roriz, fundadora e diretora-geral do Colégio Edna Roriz, no bairro Belvedere, a educação inclusiva é um conceito muito mais amplo do que apenas garantir o acesso e a permanência de estudantes com deficiência ou neurodivergências na escola. Trata-se de construir um ambiente educacional capaz de acolher, respeitar e promover a aprendizagem de todos os alunos, independentemente de suas características, origens ou condições de vida.
A prática pressupõe a construção de ambientes capazes de acolher as diferenças huma-nas em sua pluralidade, garantindo oportunidades reais, participação e desenvolvimento coletivo. “Isso significa adaptar práticas pedagógicas, formar professores, rever currículos e construir uma cultura escolar baseada na equidade, no respeito e na participação de todos”, afirma a educadora. Em sua análise, embora os avanços legais e sociais tenham ampliado o acesso de estudantes com necessidades específicas às escolas e universidades, a presença física desses alunos nas instituições não significa, necessariamente, que a inclusão esteja acontecendo de forma efetiva.
“O desafio atual não está apenas em abrir as portas das escolas, mas em transformar práticas pedagógicas, estruturas físicas e culturas institucionais ainda baseadas em um modelo de ensino voltado para um aluno considerado padrão”, diz Edna. Nesta entre-vista à Revista Viva Nova Lima, ela aborda os principais desafios da inclusão no ambiente escolar, o papel das famílias e dos professores, e a necessidade de combater diferentes formas de preconceito dentro das salas de aula.
REVISTA VIVA NOVA LIMA - Na sua visão, o que realmente significa inclusão dentro do ambi-ente escolar?
Edna Roriz - A inclusão é um conceito que se refere à criação de um ambiente em que todas as pessoas, independentemente de suas diferenças, possam participar plenamente da sociedade. Eu sempre procuro diferenciar inclusão de integração, que se refere à incorporação de pessoas com deficiência em ambientes que foram projetados para pessoas sem deficiência. Na inclusão, todos os espaços físicos e todas as atividades propostas são projetadas para todas as pessoas, ou seja, para acomodar todas as diferenças que, inevitavelmente, teremos, garantindo as mes-mas oportunidades para todos. Essa forma de pensar a inclusão não delimita apenas o ambiente escolar, mas todos os ambientes da sociedade.
Muitas pessoas ainda confundem inclusão com educação especial. Qual a diferença entre esses dois conceitos na prática?
A educação especial envolve a adaptação de práticas educacionais para atender às necessidades individuais de cada estudante com deficiência, transtorno ou condição especial, ou seja, é uma modalidade da educação escolar voltada a garantir recursos, estratégias e atendimento especializado para alunos que apresentam necessidades educacionais específicas, especialmente estudantes com deficiência e altas habilidades ou superdotação. A inclusão escolar é muito mais ampla pois procura garantir que, independente de suas características individuais ou suas diferenças, todos tenham acesso às mesmas oportunidades de aprendizagem através de um ambiente acolhedor em que toda diversidade que nos caracteriza tenha lugar garantido, isto é, não se espera que haja a necessidade de qualquer adequação em um ambiente inclusivo. Nele, todas as pessoas cabem, são respeitadas e podem desenvolver seu potencial.
Pesquisas apontam que o número de alunos neurodivergentes e com deficiência nas escolas e universidades tem aumentado nos últimos anos. As instituições estão preparadas para essa realidade?
Segundo muitos profissionais da área da saúde, o número de alunos neurodivergentes e com deficiência não necessariamente aumentou, mas hoje temos melhores condições de diagnosticar os transtornos. Na minha opinião, esse cenário resulta de uma com-binação de fatores: mais diagnósticos, maior acesso à escola regular, ampliação dos direitos legais, maior conscientização das famílias, melhoria dos registros oficiais e mais visibilidade para estudantes que antes eram excluídos ou sequer identificados. Os dados do Inep refletem essa realidade, mostrando um crescimento de 58,7% nas matrículas da educação especial entre 2020 e 2024, além do aumento da participação desses estudantes no no ensino superior.
Apesar desse avanço, não acredito que as instituições estejam plenamente preparadas para essa realidade. Receber a matrícula não significa, necessariamente, garantir inclusão. Muitas escolas ainda operam com uma estrutura pensada para um “aluno médio”, adotando as mesmas estratégias, avaliações e expectativas para todos. Além disso, há uma carência significativa na formação dos docentes. Quando existe, a formação continuada costuma ser pontual ou excessivamente teórica. Sinto falta de uma preparação mais prática, voltada para os desafios reais da sala de aula, como adaptar atividades, avaliar diferentes perfis de aprendizagem, mediar conflitos e ensinar um mes-mo conteúdo respeitando distintos níveis de complexidade e necessidades.
Quais são hoje os maiores desafios enfrentados pelos professores em sala de aula quando falamos de inclusão?
Muitos professores querem ajudar, mas não foram formados para trabalhar com TEA, TDAH, deficiência intelectual, dislexia, altas habilidades/superdotação, deficiência visual, deficiência auditiva, deficiência física ou dupla excepcionalidade. Trabalhar verdadei-ramente com a inclusão não depende apenas da disponibilidade do professor em fazê-lo. É necessário que a inclusão seja uma política institucional, com orientação pedagógica e planejamento coletivo. A ação pedagógica numa escola inclusiva irá requerer que o professor tenha subsídios teóricos e metodológicos para buscar novas formas de ensinar, de modo que seja possível o apren-dizado de todos.
O quanto o diagnóstico precoce pode impactar no desenvolvimento e na apren-dizagem da criança?
O diagnóstico precoce, desde que não seja apenas um “rótulo”, mas uma possibilidade para intervenções adequadas, fará com que, mais cedo, a criança seja compreendida em suas necessidades. Neste caso, a família pode organizar os apoios mais acertados, encontrando profissionais da saúde e escolas que poderão interferir de forma significativa na trajetória de desenvolvimento, autonomia e socialização da criança.
Em muitos casos, são os professores os primeiros a perceber sinais de dificuldades ou neurodivergências. Como deve ser feita essa abordagem junto às famílias?
Essa é uma questão muito delicada. A presença de uma dificuldade de aprendizagem não implica, necessariamente, um transtorno que interfere no processo de aquisição e manutenção de informações de uma forma acentuada. As dificuldades de aprendizagem não estão ligadas apenas aos sistemas biológicos cerebrais, mas podem ser causadas por problemas passageiros, como, por exemplo, as dificuldades que a criança pode apresentar em algum momento da vida, como a separação dos pais ou a perda de alguém, trazendo então problemas psicológicos e/ou comportamentais, falta de motivação e baixa autoestima.
Acredito que a escola e a família devem transformar suas atuações em uma sólida parceria, tornando possível uma conversa franca e sempre em benefício da criança. Portanto, se houver a percepção de alguma dificuldade, o primeiro passo é pedir uma avaliação de um profissional habilitado. Eu sempre lembro aos nossos professores que diagnóstico é uma prerrogativa da medicina e não da educação.
O que caracteriza uma escola verdadeiramente inclusiva além da presença de alunos com deficiência?
Inclusão é uma concepção de escola que reconhece que todos os estudantes são diferentes e que o sistema escolar precisa se organizar para acolher, ensinar e permitir a participação de todos. A UNESCO, no Relatório Global de Monitoramento da Educação de 2020, trabalha com a ideia de que inclusão significa enfrentar as barreiras que excluem estudantes da aprendizagem e da participação, sejam elas ligadas à deficiência, pobreza, origem social, raça, gênero, idioma, território, cultura ou outras condições.
Como equilibrar o ensino coletivo com a necessidade de um olhar individualizado para cada estudante?
Vou responder baseado em minha prática. Pela lei, devemos construir um Plano Edu-cacional Individualizado para todos os alunos da Educação Especial. Na nossa escola, temos um Plano de Desenvolvimento de Talentos e Competências para todos os alunos desde o ensino Fundamental até a Terceira Série do Ensino Médio. Para esta construção, ouvimos os alunos, os professores e aplicamos testes diagnósticos que permitem que visualizemos as trajetórias, ou como eu chamo, as trilhas que devemos seguir, nós professores, os alunos e suas famílias. Assim, temos uma escola que não abandona o ensino coletivo, porque é nele que se constroem convivência, pertencimento e vida em grupo sem ignorar que cada estudante aprende de modo singular, em tempos, ritmos, interesses, dificuldades e potencialidades diferentes.
A senhora acredita que o modelo tradicional de ensino ainda atende às demandas das novas gerações e da diversidade em sala de aula?
Acredito que o modelo tradicional ainda oferece contribuições importantes, mas não atende mais, sozinho, à complexidade das novas gerações e da diversidade em sala de aula. A escola atual precisa preservar o rigor do conhecimento, mas superar a lógica de que todos aprendem da mesma forma , no mesmo tempo e pelos mesmos caminhos. Ensinar hoje exige combinar excelência acadêmica, escuta, inclusão, flexibilidade pedagógica e formação humana. A escola do nosso tempo não pode ser apenas trans-missora de conteúdos; precisa permitir que os sujeitos se formem. Precisa ensinar a pensar, conviver, criar, cuidar de si, compreender o outro e participar responsavelmente da sociedade.
Quais adaptações pedagógicas simples podem fazer uma grande diferença na rotina e no aprendizado dos alunos, especialmente os neurodivergentes?
Muitas adaptações simples podem produzir grande diferença porque não mudam a essência do conteúdo; elas mudam o modo de acesso, organização, participação e ex-pressão do aluno. Em outras palavras: não se trata de “facilitar” indevidamente, mas de remover barreiras. Entre elas estão a previsibilidade, ou seja, dizer logo no início o que vai acontecer, em que ordem e o que se espera do aluno. Dar comandos curtos e objetivos. Oferecer mais tempo quando necessário. Reduzir estímulos desnecessários. São exemplos de atitudes pedagógicas simples e muito eficazes e que devem fazer parte da rotina escolar de alunos neurodivergentes.
O preconceito dentro das escolas não atinge apenas alunos com deficiência, mas também crianças negras e de diferentes contextos sociais. Como a escola pode combater essas desigualdades e promover um ambiente verdadeiramente acolhedor e respeitoso para todos?
A escola não pode depender apenas de campanhas em datas comemorativas. O enfrentamento das desigualdades deve estar incorporado ao currículo, às normas de convivência, à formação dos professores, à comunicação com as famílias e à rotina da sala de aula. A inclusão verdadeira envolve deficiência, raça, classe social, gênero, território, linguagem, religião, cultura familiar e tantas outras marcas de identidade. A escola precisa agir no currículo, na convivência, na formação docente e na gestão institucional.
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