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A ascensão do terroir mineiro

Vinhos de colheita de inverno do Sul de Minas alcançam  pontuações históricas no Guia Descorchados 2026



Patrício Tapia, fundador do guia Descorchados, relata que ele e sua equipe já haviam provado vinhos mineiros em outras ocasiões. “Desta vez o objetivo foi verificar a fundo a evolução da região. Na verdade, fomos com muito preconceito, mas gostamos muito do que vimos”. Foto: divulgação
Patrício Tapia, fundador do guia Descorchados, relata que ele e sua equipe já haviam provado vinhos mineiros em outras ocasiões. “Desta vez o objetivo foi verificar a fundo a evolução da região. Na verdade, fomos com muito preconceito, mas gostamos muito do que vimos”. Foto: divulgação

Por: Marcelu Dvin


Os vinhos brasileiros de colheita de inverno vêm ganhando cada vez mais destaque nos concursos e nas críticas internacionais especializadas. No Guia Descorchados 2026, duas vinícolas mineiras brilharam ao consolidar o potencial do nosso terroir e elevar o padrão de excelência da região. A Casa Almeida Barreto e a Sacramentos Vinifer não apenas figuraram entre os melhores, mas arremataram títulos que atravessam todas as categorias — de espumantes a tintos estruturados, incluindo uma pontuação histórica de 95 pontos para um varietal branco. O resultado deste ano é um marco definitivo que coloca o terroir da Mantiqueira em um novo patamar de relevância no cenário vitivinícola global.  


Sacramentos Vinifer:  o  branco que fez História


A grande estrela desta edição do Guia Descorchados é, sem dúvida, o Sabina Entre Serras Sauvignon Blanc 2025, que conquistou históricos 95 pontos. O blend de Sauvignon é proveniente de dois vinhedos: 40% da Serra da Canastra (vinhedo São Miguel) e os 60% restantes da Serra da Mantiqueira (vinhedo São Gonçalo). Nunca um vinho branco brasileiro havia alcançado uma pontuação tão alta  na história do guia.  Sua elaboração  revela um preciosismo técnico raro:   o vinho nasce de  fermentações separadas em foudres, barricas e ovos de concreto, componentes que mais tarde se fundem em um corte preciso. O estágio final — 75% em foudres e 25% em ovos de concreto — lapida sua estrutura sem mascarar a pureza da fruta. O rótulo também foi eleito o “Melhor Branco do Brasil” e integra a prestigiada lista “Top Ten Branco”.


Melhor vinho do ano - Sabina Entre Serras Sauvignon Blanc 2025
Melhor vinho do ano - Sabina Entre Serras Sauvignon Blanc 2025

Em boca, o que se encontra é uma acidez marcante, quase exuberante: incisiva, energética e persistente. É possível notar também uma concentração de sabores e um perfil salino que confere não apenas complexidade, mas um caráter profundo. É um Sau-vignon Blanc que parece romper os esquemas tradicionais da variedade no Brasil, redefinindo o que se espera de um branco de alta gama no país.


Fundada por Jorge Donadelli e seus filhos, a Sacramentos Vinifer iniciou sua jornada em novembro de 2018 e lançou seu primeiro rótulo em 2021: o Sabina Syrah, premiado como o melhor tinto do Brasil já em sua primeira safra. Neste ano de 2026, a vinícola recebeu seis premiações, destacando-se entre os melhores brancos, melhor rosé e melhor espumante. A vinícola mantém um rigoroso estoque técnico de todas as suas safras, uma espécie de biblioteca enológica que permitiu perceber um fenômeno valioso: a surpreendente longevidade de seus rótulos.


A combinação de uma acidez vibrante com taninos de excelente estrutura garante que os vinhos não apenas suportem o tempo, mas evoluam em complexidade e elegância. Para Jorgito, o foco agora é a paciência.


"Nós entendemos que os nossos vinhos evoluem muito com o tempo. Por isso, nosso próximo desafio é lançar vinhos com mais tempo de maturação, entregando produtos ainda mais prontos ao mercado", revela.

Casa Almeida Barreto: a consagração da brasilidade


A vinícola Casa Almeida Barreto assume o protagonismo nacional ao ser a primeira e única a elaborar vinhos varietais das castas Mourvèdre e Cinsault no Brasil. “É essa tropicalidade exuberante que reforça o caráter singular do terroir”, diz Gabriel Barreto. Foto: divulgação
A vinícola Casa Almeida Barreto assume o protagonismo nacional ao ser a primeira e única a elaborar vinhos varietais das castas Mourvèdre e Cinsault no Brasil. “É essa tropicalidade exuberante que reforça o caráter singular do terroir”, diz Gabriel Barreto. Foto: divulgação

Eleita a Vinícola do Ano, a Casa Almeida Barreto iniciou sua jornada em 2019 na Fazenda Araucária. A 1.300 metros de altitude, na fronteira entre Minas e São Paulo, a propriedade já produzia café quando foi adquirida pela família e ainda hoje ele divide o palco com as videiras. A partir de estudos aprofundados de terroir, a vinícola encontrou condições favoráveis para o cultivo de Syrah, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Viognier e Chardonnay.


Mas a ousadia foi além: a vinícola assume o protagonismo nacional ao ser a primeira e única a elaborar vinhos varietais das castas Mourvèdre e Cinsault no Brasil. A identidade da Casa Almeida Barreto está enraizada em sua brasilidade autêntica. As videiras crescem em meio a bananeiras, amoreiras, pitangueiras e limões caipiras. Segundo Gabriel Barreto, que está à frente do projeto, é essa tropicalidade exuberante que reforça o caráter singular do terroir.


Embora o Syrah seja o porta-estandarte da região, a consagração do Paralelas Cabernet Franc 2024 como o "Tinto do Ano" (94 pontos) acende um novo debate técnico. O rótulo provou que a precisão e o frescor podem, sim, vencer a potência.

"O sucesso é o subproduto de uma filosofia de vida conectada com o campo, onde a qualidade técnica caminha lado a lado com o respeito ao tempo da natureza", diz Gabriel.

Melhor tinto - Paralelas Cabernet Franc 2024
Melhor tinto - Paralelas Cabernet Franc 2024

A ascensão dos vinhos de inverno


Patrício Tapia, fundador do guia Descorchados, relata que ele e sua equipe já haviam provado vinhos mineiros em outras ocasiões, mas desta vez o objetivo foi verificar a fundo a evolução da região. Ele admite que o caminho foi marcado por surpresas.

"Na verdade, fomos com muito preconceito, mas gostamos muito do que vimos. Desde o ano passado, percebemos uma grande mudança; antes os vinhos pareciam muito robustos e com pouco caráter".

Após uma investigação profunda, a percepção mudou drasticamente.

"Percebemos que os vinhos de inverno têm um grande potencial. Provamos muitos bons Cabernet Franc e, obviamente, Syrah", afirma o crítico.

Ao ser questionado sobre o que mudou para que um vinho de inverno ganhasse como o melhor do Brasil, Tapia é direto.

"Sem dúvidas, o desenvolvimento. A dupla poda ainda é uma técnica muito jovem e que precisa de tempo. É o tempo que traz esse refinamento".

Assim como o café e o queijo da Serra da Canastra conquistaram o mundo com sua cura paciente, complexidade aromática e sabor inconfundível, o vinho mineiro de inverno agora ocupa seu lugar de direito na mesa da alta gastronomia. Degustar esses rótulos é, acima de tudo, um exercício de pertencimento: uma mistura de sabores, culturas e texturas que vibra entre o som das serras e as cores do nosso cerrado. É a prova de que o luxo, em Minas, reside no simples executado com perfeição e paciência.







Marcelu Dvin é sommelier e colunista da Revista Viva Nova Lima. Especialista em vinho, marketing e comunicação.

@marcelodvin










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