O legado do chef Ivo Faria na gastronomia mineira
- Revista Viva Nova Lima

- 7 de jul.
- 9 min de leitura
Da infância humilde em Belo Horizonte ao reconhecimento como um dos maiores chefs de Minas Gerais, Ivo Faria conta os desafios, conquistas e a trajetória que o transformou em um dos chefs mais respeitados do Brasil

Por: Daniela Costa
O reconhecimento conquistado pelo chef Ivo Faria na gastronomia mineira é resultado de uma trajetória marcada por trabalho, perseverança e superação. Muito antes dos prêmios, dos restaurantes de sucesso e da projeção nacional, havia apenas um menino de sete anos que caminhava cerca de seis quilômetros todos os dias para chegar à escola. Ao fim das aulas, percorria o mesmo caminho de volta para casa. Foi nessa rotina de esforço que começou a ser construída a história de um dos maiores nomes da culinária de Minas Gerais.
Nascido em 1953, em uma família simples do bairro Primeiro de Maio, na região norte de Belo Horizonte, Ivo Faria aprendeu cedo que a vida nem sempre serve os melhores pratos. Ainda na infância, perdeu o pai e viu a mãe, dona Jordelina, transformar a dor em força para criar sozinha os quatro filhos. Em uma época em que o bairro enfrentava dificuldades sociais e econômicas, foi dentro de casa que o futuro chef de cozinha recebeu as lições que moldariam sua vida e sua carreira. "Minha mãe fez o impossível para manter os filhos longe das drogas e dos caminhos errados. Nos ensinou valores que carregamos até hoje: dignidade, honestidade, respeito e muito trabalho", relembra.
Décadas depois, o chef Ivo Faria, hoje reconhecido como um dos maiores nomes da gastronomia mineira e da culinária brasileira, ainda se emociona ao lembrar daquele menino que sonhava em ser trocador ou motorista de ônibus. Na época, a cozinha sequer fazia parte de seus planos. O destino, porém, reservava outros caminhos para quem viria a se tornar uma referência nacional da alta gastronomia.
Ainda na adolescência, incentivado por amigos, Ivo Faria ingressou em um curso do Senac, em Belo Horizonte. O que parecia apenas uma oportunidade de formação profissional acabaria transformando completamente sua vida e marcando o início de uma carreira que influenciaria gerações de cozinheiros e chefs. "Minha mãe foi até lá com uma vizinha e disseram que aceitavam apenas alunos menores de 14 anos. Eu estava exatamente no limite da idade, mas acabaram me recebendo", relembra.

Dessa vez, porém, não seria necessário percorrer longas distâncias a pé para estudar. O Senac oferecia uma bolsa-auxílio para custear o transporte dos alunos, um incentivo que permitiu ao jovem seguir em frente e descobrir, quase por acaso, a profissão que definiria seu futuro. Sem imaginar, aquele adolescente dava os primeiros passos de uma trajetória que transformaria Ivo Faria em um dos chefs de cozinha mais respeitados do Brasil, com papel decisivo na valorização da gastronomia mineira dentro e fora de Minas Gerais.
Para o adolescente, a motivação inicial para ingressar na instituição estava bem longe da cozinha. O que o atraía era a possibilidade de ter acesso a experiências que nunca havia vivido. “Lá a gente jogava futebol na quadra, nadava na piscina e comia do bom e do melhor. Eram coisas que eu nunca tinha tido”, recorda. Ivo faz questão de destacar o alto nível de excelência do curso realizado. Entre os professores estava o renomado chef francês Lucien Iltis, que comandou as cozinhas do Copacabana Palace e da Presidência da República durante o governo de Juscelino Kubitschek.
Pioneiro na alta gastronomia de Minas Gerais, ele foi o responsável por inaugurar a primeira escola de hotelaria e culinária do Brasil, em Belo Horizonte. Para o jovem aluno, ter acesso a profissionais desse calibre representou uma formação rara e decisiva em sua trajetória. Curiosamente, Ivo Faria não sonhava em ser cozinheiro. Naquele tempo, a profissão ainda não tinha o prestígio nem a visibilidade que possui hoje, e a figura do chef de cozinha praticamente não existia no imaginário popular. “Eu detestava cozinha”, enfatiza.
O seu desejo mesmo era trabalhar como garçom nos salões dos restaurantes. Mas a realidade dos anos 1960 era dura: o preconceito racial ainda era uma barreira signi-ficativa e impedia que muitos jovens negros ocupassem determinadas funções e espaços no mercado de trabalho. "Na cozinha estavam os morenos, os pobres, os que não se encaixavam no padrão da época. No salão ficavam os mais claros e considerados de boa aparência", relembra.
O que poderia ter sido motivo para desistir transformou-se em combustível. Entre panelas, fogões e um mestre francês de personalidade rígida, nasceu um interesse inesperado. Aos poucos, o menino que chegou a pensar em desistir do curso de cozinheiro começou a descobrir um universo que lhe abriria portas para o mundo. Sua dedicação logo chamou a atenção dos professores. Ainda muito jovem, Ivo Faria passou de aluno a auxiliar e, pouco depois, assumiu responsabilidades que pareciam grandes demais para a sua idade. “Logo comecei a dar aula para outros alunos, pois não havia instrutor disponível. Essa escola surgiu em um momento difícil, quando quase ninguém se interessava por gastronomia e menos ainda pela profissão de garçom. Geralmente, quem procurava o curso eram pessoas de origem humilde”, recorda.

Após apenas um ano de curso, a turma do Senac em Belo Horizonte foi encerrada. Foi então que, aos 15 anos, com apenas 1,55 metro de altura e 55 quilos, o jovem encarou um novo desafio: mudar-se para o Hotel-Escola Grogotó, em Barbacena, mantido pelo Senac. Ali, daria continuidade à sua formação profissional e iniciaria uma das fases mais desafiadoras de sua trajetória. “Éramos apenas oito alunos na cozinha e, por falta de pessoal, acabávamos assumindo dois turnos de trabalho por dia. Eu nunca reclamei”.
Ao final de mais um ano de aprendizado, quando já se aproximava da conclusão do curso, o hotel-escola recebeu 28 jovens da então Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem). “Foi uma forma de manter as turmas em funcionamento, já que, naquela época, os cursos de cozinha e de garçom despertavam pouco interesse”, explica. Aos 17 anos de idade, Ivo Faria acabou sendo contratado pelo Senac para continuar como auxiliar de cozinha. Em 15 dias já estava dando aula para os alunos recém-chegados. “Eu era um menino dando aula para homens de 23, 24 anos e tendo que lidar com as dificuldades e limitações de cada um”, recorda.

Depois disso, foi promovido a cozinheiro, mas ainda não ao cargo de instrutor. “Colocavam instrutores que não tinham competência para dar aula, e eu acabava tendo que ensinar aos alunos”, recorda. Aos 19 anos, decidiu deixar o Senac e voltar para Belo Horizonte. Pouco tempo depois, recebeu o convite para ser chef no extinto restaurante francês, Bar e Café São Jorge, no bairro de Lourdes, onde permaneceu por três anos antes de pedir demissão. “Percebi que tinha toda aquela experiência, mas só havia cursado até o quarto ano primário. Foi aí que decidi sair para concluir os estudos e aprender francês”, conta.
Aos 21 anos, concluiu o supletivo de primeiro grau e cursou o técnico em Nutrição e Dietética. O esforço foi recompensado: pouco tempo depois, retornou ao Senac para ocupar justamente o lugar de seu ex mestre francês. “Ao contrário de muitos jovens de hoje, eu sempre pensei primeiro no aprendizado e só depois no dinheiro. Tanto que nunca deixei de manter contato com o chef Lucien, mesmo após a sua aposentadoria”, recorda. A admiração e o respeito construídos ao longo dos anos eram mútuos. A prova disso é que foi o próprio Ivo quem assumiu a responsabilidade de comandar o serviço da recepção de casamento da filha de Lucien, um gesto que simbolizava a confiança depositada pelo pro-fessor em seu antigo aluno.
Foi essa determinação que o levou a uma das experiências mais transformadoras de sua vida: participar de uma concorrida bolsa de estudos no Centre International de Glion, renomada escola de gastronomia suíça que, na época, formava os principais nomes da hotelaria mundial. Havia apenas uma vaga para candidatos de todo o Brasil. Ele conquistou. Longe de casa, enfrentou um dos períodos mais intensos da carreira. Trabalhou ao lado de mestres reconhecidos internacionalmente absorvendo técnicas, disciplina e uma visão de excelência que carregaria para sempre.
"Ao longo da estrada eu sofri preconceito, humilhações, mas nunca recuei de um desafio. O que sempre me motivava era pensar que um dia eu poderia ser igual ao chef francês que tanto me ensinou”. Aprendizados importantes que levou para fora do âmbito das cozinhas. "Ali eu aprendi sobre responsabilidade, respeito e compromisso. Aprendi que não existe crescimento sem esforço”. Ao retornar ao Brasil, trouxe na bagagem muito mais do que conhecimento técnico. Trouxe a convicção de que era possível construir algo grande.

Nos anos seguintes, participou da formação de inúmeros profissionais, ajudou a estruturar restaurantes e assumiu posições de liderança em um mercado que ainda dava os primeiros passos. Ao longo de 12 anos no Grupo Alpino, foi responsável pela implantação de 14 restaurantes em Belo Horizonte, entre eles o Tip Top, o Pier 32 e o Dom Cabral. Naquele período, a gastronomia mineira começava a se profissionalizar, e Ivo Faria era um dos principais personagens que ajudaram a construir essa história. O auge dessa trajetória viria em meados da década de 1990, com a criação do restaurante italiano Vecchio Sogno, no bairro Santo Agostinho, na região centro-sul de Belo Horizonte.
A empreitada foi realizada em parceria com o então sócio Memmo Biad e rapidamente se transformou em um dos maiores símbolos da alta gastronomia da capital mineira. Durante 25 anos, a casa recebeu empresários, artistas, autoridades e visitantes de diferentes países, consolidando-se como um dos endereços mais emblemáticos da cidade. “O Vecchio Sogno foi um lugar onde os sonhos realmente aconteceram. Muitas pessoas construíram histó-rias ali dentro”, relembra. o chef.
No restaurante, que chegou a empregar cerca de 60 pessoas, a culinária italiana servia de base para o cardápio, mas eram a excelência dos ingredientes, o rigor técnico e o cuidado na execução dos pratos que faziam a diferença e ajudaram a construir a reputação da casa. Vieram os prêmios, o reconhecimento da crítica especializada e o respeito do mercado. Mas, para quem conhece sua trajetória, os troféus parecem apenas consequência de algo maior: a capacidade de nunca parar de aprender. Quando o Vecchio Sogno encerrou suas atividades, em 2021, após os impactos da pandemia e das mudanças no setor, muitos imaginaram que seria o fim de uma carreira brilhante. Não foi.
Em 2023, nasceu o Instituto Ivo Faria. O espaço representa uma nova etapa da sua caminhada: compartilhar conhecimento. Hoje, profissionais, empreendedores, cozinheiros amadores e apaixonados pela gastronomia ocupam o espaço onde o chef transmite, com a mesma expertise de seus antigos mestres, aquilo que aprendeu ao longo de mais de cinco décadas de profissão. “O fechamento do Vecchio Sogno foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Mas a criação desse novo espaço está sendo muito gratificante”, revela. Para ele, o maior desafio das novas gerações não está na falta de oportunidades, mas na pressa. "Hoje as pessoas querem chegar rápido demais. Mas cozinha é tempo. É prática. É repetição. Não existe atalho”, afirma.
O LEGADO

Mais do que restaurantes premiados e pratos memoráveis, Ivo Faria construiu um legado que segue vivo dentro da própria família. Seus filhos cresceram acompanhando os bastidores da cozinha, observando de perto a rotina intensa dos restaurantes e absorvendo, quase sem perceber, a paixão do pai pela gastronomia. Desde 2013, o chef divide com a filha Naiara Faria (36) a condução do restaurante e pizzaria La Palma, localizado na região da Pampulha, em Belo Horizonte.
Ao longo de sua carreira, a jovem cozinheira realizou estágios em renomadas casas gas-tronômicas no exterior para ampliar sua formação e ter um cardápio com identidade própria. “Eu sempre quis que ela imprimisse o estilo dela na cozinha. Dou meus pitacos, mas o importante é que ela desenvolva as próprias ideias”, diz o pai. A sucessão também se manifesta no empreendedorismo. O filho Bruno (34) está à frente do Soul Jazz Burger, também na Pampulha, casa que combina gastronomia e música ao reunir hambúrgueres, pães e molhos desenvolvidos pela família em um ambiente inspirado nos universos do blues e do jazz. Bárbara (38), a filha mais velha, seguiu carreira na área da saúde como física médica.
Aos 73 anos — dos quais 40 ao lado da esposa Elizabeth —, o chef Ivo Faria continua trabalhando, ensinando e criando. Não porque precise. Mas porque acredita que propósito não se aposenta. Foi a forma que encontrou para seguir compartilhando conhecimento e abrir portas para jovens que, assim como ele no passado, precisam apenas de uma oportunidade para começar.
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