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A travessia

Jornalista mineira que transformou uma experiência-limite em narrativa, agora mergulha em suas vivências pelo mundo e lança um livro que reúne cidades, cenas e encontros que deixaram marcas profundas em sua trajetória


No livro “O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo”, lançado no último mês de abril pela editora Miguilim, Daniella Zupo mergulha em suas experiências como viajante, reunindo cidades, cenas e encontros que deixaram marcas profundas ao longo de sua jornada. Foto: divulgação
No livro “O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo”, lançado no último mês de abril pela editora Miguilim, Daniella Zupo mergulha em suas experiências como viajante, reunindo cidades, cenas e encontros que deixaram marcas profundas ao longo de sua jornada. Foto: divulgação

Há trajetórias que não se explicam apenas pelo currículo. Elas se revelam também nas pausas, nas rupturas e na forma como alguém escolhe narrar a própria história. É nesse território, entre a cultura, a sensibilidade e a reinvenção, que se desenha o percurso da jornalista e escritora Daniella Zupo. No livro “O dia em que encontrei Bob Dylan numa livraria de Estocolmo”, lançado no último mês de abril pela editora Miguilim, ela mergulha em suas experiências como viajante, reunindo cidades, cenas e encontros que deixaram marcas profundas ao longo de sua jornada.


A jornalista recorda que foi durante os anos em que viveu na Alemanha que descobriu o prazer de viajar com mais liberdade, explorando culturas, sabores, paisagens e possibilidades. Da Europa a diferentes cidades brasileiras, sua relação com a viagem nunca esteve ligada ao turismo convencional. Ao contrário: o que a move é a experiência do inesperado, o encontro com o que não estava previsto, a oportunidade de sair da zona de conforto e se deixar atravessar pelo caminho.


Natural de Belo Horizonte, mas há 12 anos morando em Nova Lima, ao longo de três décadas Zupo construiu uma carreira consistente no jornalismo, com atuação em rádio, televisão, imprensa escrita e, mais recentemente, nas plataformas digitais. Embora tenha transitado por diferentes áreas do noticiário, foi no jornalismo cultural que encontrou seu lugar de pertencimento.


“Um desejo que nasceu ainda nos tempos da faculdade”, relata. Quando se formou, o cenário era outro. “Era o século passado, em um mundo ainda analógico, sem internet como se conhece hoje”, diz ela.

Em 2016, aos 42 anos e no auge da carreira, a jornalista recebeu um diagnóstico inesperado: câncer de mama. “O tratamento me colocou diante de uma interrupção abrupta da vida cotidiana”, relembra Daniella Zupo
Em 2016, aos 42 anos e no auge da carreira, a jornalista recebeu um diagnóstico inesperado: câncer de mama. “O tratamento me colocou diante de uma interrupção abrupta da vida cotidiana”, relembra Daniella Zupo

E, como tantos outros profissionais da área, a jornalista começou pela experiência prática do dia a dia das redações. Seu início foi no rádio, inclusive em uma emissora musical, a extinta 107 FM, com um programa voltado ao rock. Depois vieram a televisão e o jornalismo geral, com passagens por emissoras como Rede Globo e SBT, sempre no universo do hard news. Aos poucos, no entanto, foi direcionando suas escolhas, e à medida que acumulava experiência, conquistava autonomia para decidir os rumos da própria carreira.


No início dos anos 2000, Zupo mudou-se para a Alemanha, onde viveu por sete anos, entre 2001 e 2008. A decisão teve motivações pessoais: seu marido Marcos é alemão, e o casal optou por viver no exterior. Nesse período, ela atuou como correspondente para veículos brasileiros, como o Estado de Minas, a Cultura FM, de Porto Alegre, e o SBT Brasil. Foi também na Alemanha que nasceu sua única filha, Maria. Ao retornar ao Brasil, Daniella decidiu fincar de vez os pés no jornalismo cultural.


Passou pela Rede Minas, onde apresentou o tradicional “Agenda”, e também pela Rádio Inconfidência, onde criou o “Via Mundo”, projeto voltado à cultura e à música popular brasileira. Mais tarde, já fora das redações convencionais, expandiu sua atuação por meio das plataformas digitais: canal no YouTube, newsletter, redes sociais e, mais recentemente, a coluna Segundo Caderno, na 98 News FM.


Nas entrelinhas desse percurso, a vida lhe reservava uma experiência que transformaria profundamente não apenas sua rotina, mas também sua escrita, seu olhar e sua forma de existir. Em 2016, aos 42 anos e no auge da carreira, a jornalista recebeu um diagnóstico inesperado: câncer de mama. Sem histórico familiar, com exames em dia, jovem, ativa e sem fatores de risco aparentes, foi surpreendida por uma notícia que, como ela mesma afirma, é sempre um choque.


“Além do impacto do diagnóstico, o tratamento exigiu meu afastamento do trabalho e me colocou diante de uma interrup-ção abrupta da vida cotidiana”, recorda.

O projeto "Amanhã Hoje é Ontem" (AHO) surgiu primeiro como documentário e websérie, depois como livro. A produção se tornou, à época, a primeira websérie brasileira sobre câncer de mama. “Eu quis, apenas, falar com verdade”, revela Zupo
O projeto "Amanhã Hoje é Ontem" (AHO) surgiu primeiro como documentário e websérie, depois como livro. A produção se tornou, à época, a primeira websérie brasileira sobre câncer de mama. “Eu quis, apenas, falar com verdade”, revela Zupo

Foi desse lugar de vulnerabilidade que nasceu um novo projeto de linguagem. Incomodada com a forma como o tema costumava ser tratado — ora excessivamente técnico, restrito à pauta médica, ora carregado de dramatização e vitimização —, Zupo decidiu construir uma narrativa que investigasse a dimensão existencial da doença. Em vez de falar apenas de protocolos, exames e tratamentos, ela quis abordar o que acontece com uma pessoa quando ela se vê, concretamente, diante da possibilidade da morte.


Assim surgiu o "Amanhã Hoje é Ontem" (AHO), primeiro como documentário e websérie, depois como livro. A produção se tornou, à época, a primeira websérie brasileira sobre o tema, com uma abordagem íntima, honesta e pouco convencional. O trabalho ganhou repercussão nacional e levou a jornalista a programas de grande audiência, justamente por romper com os estereótipos que cercam o diagnóstico. Mais do que relatar uma experiência clínica, AHO foi concebido como manifesto.

“O projeto nasceu do olhar de uma mulher profissionalmente ativa, subitamente retirada de sua rotina, obrigada a rever prioridades, afetos, trabalho, corpo, espiritualidade e sentido da vida”, diz a jornalista.

Através da escrita, ela deu lugar a uma voz visceral, sem receitas prontas, sem positividade tóxica e sem a pretensão de ensinar.

“Eu quis, apenas, falar com verdade”, revela.

A honestidade dessa narrativa, aliás, foi preservada até mesmo nas reedições. Para Zupo, mexer demais naquele texto seria reescrevê-lo a partir de outro lugar, com outra consciência, o que o afastaria da verdade emocional de quem viveu, em carne viva, aquela travessia.


A experiência da doença também provocou transformações profundas fora da página. Daniella costuma dizer que existe, sim, uma vida antes e outra depois do câncer. E ainda que tenha preservado sua essência — a jornalista cultural, a mãe, a filha, a esposa, a mulher ligada à arte e à sensibilidade —, hoje se reconhece como alguém com outras prioridades.

“A saúde, em todas as suas dimensões, passou a ocupar o primeiro lugar em minha vida”.

Se o primeiro livro nasceu da travessia da dor, o segundo brotou da memória, do deslocamento e do prazer de percorrer o mundo
Se o primeiro livro nasceu da travessia da dor, o segundo brotou da memória, do deslocamento e do prazer de percorrer o mundo

Assim como a espiritualidade ganhou presença mais concreta em seu cotidiano, a psicanálise tornou-se ferramenta permanente de autoconhecimento. A meditação, a atividade física e a alimentação também passaram a integrar uma nova relação com o corpo. Até mesmo os afetos se reorganizaram:

"Alguns amigos ficaram, outros se afastaram, novos vínculos surgiram”, revela Daniella.

Nesse processo, o apoio da família foi decisivo. A jornalista destaca especialmente a presença do marido Marcos, que não apenas a acompanhou de perto, como também se tornou o “câmera” do seu documentário, aprendendo a filmar para ajudá-la no projeto. A filha Maria, então com nove anos, também marcou profundamente essa jornada, inclusive inspirando o título "Amanhã Hoje é Ontem" com uma frase dita ainda criança e que sintetiza, de forma poética, a percepção de que o tempo é menos linear do que parece.


O sentido da viagem


Se o primeiro livro nasceu da travessia da dor, o segundo brotou da memória, do deslocamento e do prazer de percorrer o mundo. Talvez por isso, ele não funciona como guia turístico. Não oferece roteiros prontos, listas de restaurantes ou atrações imperdíveis. É, antes de tudo, uma espécie de relato literário sobre o sentido da viagem como jornada interior, uma metáfora da própria vida. Cada capítulo carrega o nome de uma cidade e é precedido por referências musicais e poéticas que dialogam com a memória da autora — o que faz todo sentido para alguém cuja trajetória profissional sempre esteve ligada à cultura.


O próprio Bob Dylan, que dá nome à obra, surge como uma presença simbólica e recorrente ao longo do livro. Ídolo declarado da jornalista, o artista encarna, para ela, a recusa à zona de conforto e a potência de uma existência em permanente deslocamento. Se o encontro em Estocolmo de fato aconteceu ou não, ela prefere manter o suspense.


“Quem quiser descobrir vai ter que comprar o livro”, provoca, sugerindo que o mistério é parte essencial da experiência de leitura, e uma das chaves para a compreensão da obra.

Entre as muitas imagens que marcaram suas viagens, algumas permanecem especialmente vívidas. Em Kiruna, no extremo norte da Suécia, deparou-se com uma cidade sendo literalmente deslocada por causa dos impactos da mineração.


A maturidade, tema que atravessa parte das reflexões da escritora, também ocupa um lugar importante em sua fala. “Envelhecer com liberdade também significa poder aceitar os cabelos brancos, as rugas, as mudanças do corpo e do tempo sem constrangimento, sem justificativas e sem a sensação de inadequação”
A maturidade, tema que atravessa parte das reflexões da escritora, também ocupa um lugar importante em sua fala. “Envelhecer com liberdade também significa poder aceitar os cabelos brancos, as rugas, as mudanças do corpo e do tempo sem constrangimento, sem justificativas e sem a sensação de inadequação”
“Uma cena quase distópica, em que a torre de uma igreja atravessava a paisagem branca, sendo transportada em meio à neve”, recorda.

Já em Stratford-upon-Avon, no condado de Warwickshire, na Inglaterra, cidade natal do poeta e dramaturgo William Shakespeare, viveu outro instante inesquecível.

“Dentro de uma igreja, um homem cego me pediu que descrevesse o que eu via”.

A cena de uma brasileira, em outra língua, narrando o espaço para um desconhecido, ficou registrada não apenas na memória, mas também na literatura. A maturidade, tema que atravessa parte de suas reflexões, também ocupa um lugar importante em sua fala. Co-criadora do extinto podcast “As Perennials”, projeto pioneiro sobre envelhecimento feminino no Brasil, Zupo defende uma visão menos simplista sobre liberdade.


Para ela, embora haja avanços importantes em relação às gerações anteriores, ainda é preciso cuidado para que o novo discurso não mascare uma ditadura da beleza. Sua crítica não se dirige às mulheres que optam por procedimentos estéticos, mas ao padrão social que, muitas vezes, transforma tais escolhas em nova obrigação. Envelhecer com liberdade, em sua visão, também significa poder aceitar os cabelos brancos, as rugas, as mudanças do corpo e do tempo sem constrangimento, sem justificativas e sem a sensação de inadequação.


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