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Menopausa sem mitos

Especialistas esclarecem benefícios, riscos e verdades sobre a reposição hormonal e os chamados hormônios bioidênticos




Ondas de calor repentinas, noites mal dormidas, alterações de humor e ressecamento vaginal. Para muitas mulheres, esses sintomas marcam a chegada de uma nova fase da vida: o climatério. Embora seja um processo natural do envelhecimento feminino, ainda existem muitas dúvidas e desinformação sobre a menopausa e, principalmente, sobre a terapia de reposição hormonal. Segundo a ginecologista Ana Márcia Cota, especialista em Reprodução Assistida e coordenadora médica da Rede Mater Dei de Saúde, é importante compreender que menopausa e climatério não são exatamente a mesma coisa.


"A menopausa corresponde à última menstruação da vida da mulher. Já o climatério é a fase de transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo, quando ocorre uma redução progressiva da função dos ovários", explica.

Durante esse período, os níveis dos hormônios femininos, especialmente estrogênio e progesterona, diminuem gradualmente devido ao esgotamento dos folículos ovarianos. Como consequência, diversos sistemas do organismo passam a sentir os efeitos dessa mudança hormonal. Entre as queixas mais frequentes estão os fogachos — as famosas ondas de calor —, suor noturno, insônia, irritabilidade, alterações de humor, redução da libido, fadiga, dificuldades de concentração e ressecamento vaginal. É justamente quando esses sintomas começam a comprometer a qualidade de vida que a terapia hormonal pode ser considerada.


Foto: Divulgação Rede Mater Dei de Saúde
Foto: Divulgação Rede Mater Dei de Saúde

"A terapia hormonal está indicada para mulheres que apresentam sintomas que interferem no bem-estar e nas atividades do dia a dia, como os fogachos, a insônia e o ressecamento vaginal", afirma a ginecologista Ana Márcia Cota.

Apesar de ser um tratamento bastante eficaz para muitas pacientes, ela ressalta que a reposição hormonal não é indicada para todas as mulheres. Existem contraindicações importantes, como casos de câncer de mama ativo ou recente, histórico de trombose, doenças hepáticas graves e sangramentos uterinos sem causa definida. A terapia hormonal consiste na reposição dos hormônios que deixam de ser produzidos em quantidades adequadas após a menopausa.


O principal deles é o estrogênio, que atua no desenvolvimento das características sexuais, regula o ciclo menstrual e a fertilidade da mulher. Para a ginecologista Dra. Márcia Mendonça Carneiro, do Biocor Instituto/Rede D'Or e professora titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, a redução hormonal pode provocar repercussões importantes na saúde feminina.


Foto; Divulgação Biocor Instituto/Rede D'Or
Foto; Divulgação Biocor Instituto/Rede D'Or

"As mulheres nascem com um estoque fixo e não renovável de óvulos. Com o passar dos anos, ocorre uma redução progressiva da quantidade e da qualidade desses óvulos até que os ovários deixem de produzir hormônios em níveis suficientes para manter os ciclos menstruais", afirma a ginecologista Dra. Márcia Mendonça Carneiro, do Biocor Instituto/Rede D'Or

Ela destaca que a deficiência de estrogênio está associada não apenas aos sintomas clássicos, mas também ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e alterações geniturinárias que podem comprometer significativamente a qualidade de vida da mulher.


Os sinais podem surgir antes dos 40 anos


Um dos principais alertas feitos pelas especialistas é que a transição menopausal pode começar muito antes do que a maioria das mulheres imagina. Eliana Teixeira, médica pós graduada em Endocrinologia e Metabologia, afirma que os primeiros sintomas podem aparecer já a partir dos 38 anos. Muitas vezes, porém, são interpretados como consequências da sobrecarga profissional, familiar ou emocional.


"Existe uma ideia equivocada de que menopausa é sinônimo de mulher idosa e de ondas de calor. Muitas pacientes chegam ao consultório com alterações importantes de humor, insônia, cansaço, ganho de peso e irritabilidade, mas não imaginam que esses sintomas possam estar relacionados ao declínio hormonal", explica.

A própria médica relata ter vivido essa experiência.


Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
"Eu fiquei extremamente impaciente, sem tolerância para situações do dia a dia. Na época, atribuí aquilo ao trabalho, à rotina familiar e às responsabilidades da maternidade. Só anos depois percebi que aqueles sintomas já eram sinais do climatério", diz a Endocrinologia e Metabologia, Eliana Teixeira.

Muitas mulheres, no entanto, convivem com esses sinais durante anos sem relacioná-los à queda hormonal.


Quando a reposição hormonal pode ser indicada


Considerada atualmente o tratamento mais eficaz para os sintomas da menopausa, a terapia hormonal ainda desperta dúvidas e receios. As especialistas ressaltam, porém, que a indicação deve ser sempre individualizada.


"O aumento do risco de câncer de mama, por exemplo, costuma ser pequeno e está associado principalmente ao uso prolongado de determinadas combinações hormonais", explica a Dra Márcia.

E orienta que antes de iniciar qualquer tratamento hormonal é fundamental realizar uma avaliação completa. Mamografia, exames laboratoriais rastreamento do câncer de colo do útero e, em alguns casos, densitometria óssea fazem parte da investigação inicial. Outro conceito importante é o da chamada "janela de oportunidade", período em que os benefícios da terapia hormonal costumam superar os riscos.


"De maneira geral, recomenda-se que a terapia seja iniciada antes dos 60 anos ou até dez anos após a menopausa", explica a médica.

Embora a terapia hormonal seja uma ferramenta importante para muitas mulheres, ela não substitui hábitos saudáveis. Prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do peso, redução do consumo de álcool, sono de qualidade e manejo do estresse continuam sendo pilares fundamentais para atravessar essa fase com mais saúde.


Para as especialistas, o principal erro é buscar informações apenas na internet ou seguir promessas divulgadas sem respaldo científico.


"Cada mulher possui um perfil hormonal, metabólico e histórico de saúde diferente. Por isso, a avaliação individualizada é essencial para definir a melhor estratégia de tratamento", conclui a endocrinologista Eliana Teixeira.


Hormônios bioidênticos: marketing ou vantagem real?


Outro tema que vem ganhando espaço nas redes sociais é o uso dos chamados hormônios bioidênticos. Embora frequentemente apresentados como uma alternativa mais moderna ou mais segura, as especialistas alertam que existe muita desinformação em torno do assunto. Segundo Ana Márcia Cota, hormônios bioidênticos são substâncias cuja estrutura molecular é idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo organismo. No entanto, eles também são produzidos em laboratório.


"Existe um mito de que hormônio bioidêntico só existe em fórmulas manipuladas, mas isso não é verdade", esclarece.

Ela reforça que diversos medicamentos industrializados já utilizam hormônios bioidênticos e passam por rigorosos controles de qualidade e segurança.


"O consenso brasileiro sobre terapêutica hormonal na menopausa afirma que não existem evidências científicas suficientes para demonstrar que os chamados hormônios bioidênticos manipulados sejam mais eficazes ou mais seguros do que os tratamentos convencionais", destaca.

A especialista alerta que algumas formulações manipuladas podem apresentar maior variabilidade de dosagem, o que exige atenção redobrada e acompanhamento médico rigoroso. Mais do que uma condição médica, a menopausa representa uma etapa natural da vida feminina. E informação de qualidade continua sendo a principal aliada da mulher.


"A menopausa não deve ser vista como uma doença, mas como uma fase de transformações. Quando a mulher recebe orientação adequada e tratamento individualizado, é possível atravessar esse período com saúde, conforto e qualidade de vida", conclui Dra. Márcia Mendonça Carneiro.


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