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O gin de petrópolis

Entre tradição e liberdade criativa, a master distiller Fernanda Godinho transforma botânicos do Cerrado, mel de abelhas sem ferrão e saber artesanal em uma bebida que conecta território, sustentabilidade e identidade brasileira


“Sempre gostei de cerveja, mas também tinha uma paixão por destilados. O gin me conquistou pela relação com as ervas, com os botânicos e pelo contato com a natureza”, diz a master distiller, Fernanda Godinho. Foto: Fred Amorelli
“Sempre gostei de cerveja, mas também tinha uma paixão por destilados. O gin me conquistou pela relação com as ervas, com os botânicos e pelo contato com a natureza”, diz a master distiller, Fernanda Godinho. Foto: Fred Amorelli

Por: Daniela Costa


Na língua da etnia indígena Machacali, um dos povos tradicionais de Minas Gerais, a palavra Puhuk significa abelhas. Na coreografia silenciosa do dia, elas guardam a rainha como um tesouro vivo, dançam entre pétalas em busca de pólen e, com paciência e precisão, transformam o voo em mel: um doce testemunho de sua importância e contribuição ao mundo. 


Não por acaso, Puhuk também é nome que dá identidade ao primeiro gin do Brasil ela-borado com mel de abelhas nativas sem ferrão.  E, por trás do aroma cítrico que se eleva da taça e do toque suave que permanece no paladar, existe uma história que começa longe dos bares e das prateleiras. Ela nasce em meio à natureza, entre agricultores familiares e um alambique que opera em microlotes, onde cada garrafa de gin carrega mais do que uma receita: carrega território, respeito e intenção.


Localizada no bairro Jardim de Petrópolis, em Nova Lima, a destilaria Puhuk é um empreendimento conduzido   pela  produtora  Fernanda Godinho e inspirado na tra-jetória de sua própria família. “Primeiro meus pais montaram uma micro-cervejaria   no   local   e   depois  foi  a  vez do meu irmão. O negócio dele se expandiu e acabou mudando de lugar. Agora é a minha vez de empreender”, diz ela. Além de sua afinidade pessoal com a bebida, Fernanda recorda que a pandemia acabou conduzindo o projeto familiar em direção aos destilados.


Na busca por aprofundamento técnico, contou com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) e acabou se especializando como master distiller, ou Mestre Destilador, especialista responsável pela criação de receitas, supervisão de todo o processo de produção e controle de qualidade.

O destilado, diz ela, abre espaço para a diversidade de botânicos e dialoga diretamente com os elementos naturais da propriedade onde vive. “Sempre gostei de cerveja, mas também tinha uma paixão por destilados. O gin me conquistou pela relação com as ervas, com os botânicos e pelo contato com a natureza”, diz Fernanda.


O gin Puhuk se destaca como o primeiro do Brasil elaborado com mel de abelhas nativas sem ferrão, unindo inovação, biodiversidade e identidade brasileira em cada destilação. Foto: Fred Amorelli
O gin Puhuk se destaca como o primeiro do Brasil elaborado com mel de abelhas nativas sem ferrão, unindo inovação, biodiversidade e identidade brasileira em cada destilação. Foto: Fred Amorelli

Uma parte dos botânicos empregados na destilação da bebida vem de agricultores familiares da região, enquanto o zimbro, ingrediente indispensável, ainda precisa ser adquirido no exterior. Além da imersão nos processos técnicos, Fernanda revela que é preciso, sobretudo, se entregar à percepção sensorial, ou seja, à leitura de aromas, texturas e sabores que transformam ingredientes em experiência. Para ela, o gin não é apenas uma bebida, mas um ponto de encontro entre gastronomia, ciência e cultura. “É uma bebida extremamente aromática e exige que a gente compreenda a combinação dos sabores, como se fosse um prato”, explica.


O gin, com sotaque do Cerrado, traz em sua receita um detalhe que se tornou assinatura: a valorização de ingredientes brasileiros e de produtores da própria região. No rótulo London Dry, o primeiro da marca, um ingrediente inédito no universo do gin ganha protagonismo: a castanha de baru.  “Aqui no Brasil, já se usa castanha-do-pará, então resolvi pesquisar a castanha de baru, que nunca tinha sido utilizada em gin. Elas conferem cremosidade e leveza à bebida”, diz Fernanda. O resultado é um rótulo que, além de sabor, carrega um marco: a primeira receita do gênero a incorporar o fruto típico do Cerrado brasileiro.


O segundo rótulo, um Old Tom Gin, aprofunda ainda mais esse diálogo entre tradição e liberdade criativa. O estilo que surgiu na Inglaterra do século XVIII, quando o gin clandestino era adoçado para suavizar a aspereza das destilações rudimentares, hoje se tornou um território fértil para a experimentação. “Ele nos permite brincar com sabores e aromas e ousar ainda mais nas receitas”, diz Fernanda. É nesse rótulo que o mel entra em cena — mas não qualquer mel. 


O custo para legalizar uma destilaria artesanal pode ultrapassar R$ 150 mil apenas para adequar o espaço às exigências do Ministério da Agricultura e da Vigilância Sanitária. "Impostos e burocracia que tornam o caminho dos pequenos produtores quase inviável", diz Fernanda. Foto: Fred Amorelli
O custo para legalizar uma destilaria artesanal pode ultrapassar R$ 150 mil apenas para adequar o espaço às exigências do Ministério da Agricultura e da Vigilância Sanitária. "Impostos e burocracia que tornam o caminho dos pequenos produtores quase inviável", diz Fernanda. Foto: Fred Amorelli

As abelhas que também contam a história


O mel utilizado vem de abelhas nativas sem ferrão, criadas na própria propriedade, onde são abrigadas 11 espécies diferentes. Dentre elas, três fornecem o mel que dá identidade à bebida: Jataí, Uruçu Amarela e Borá. Cada uma produz um mel com cor, aroma e sabor singulares, moldados pela florada, pela época do ano e até pelos potes onde o mel é armazenado dentro da colônia. “Essas abelhas guardam o mel em potes feitos de cerume, uma mistura de resina, própolis e cera. Isso também interfere no sabor”, explica a produtora.


Mais líquido que o mel convencional, o mel nativo continua fermentando depois de colhido. Isso faz com que, a cada semana, o sabor se transforme. Um detalhe que tem chamado a atenção da alta gastronomia e que transforma o ingrediente em um universo de possibilidades sensoriais. Cuidar dessas colônias, no entanto, exige rotina. Alimentação em períodos de escassez, monitoramento contra invasores e manejo constante fazem da meliponicultura uma prática que mistura conservação ambiental e atividade produtiva. “Não é só ter uma caixa de abelhas no quintal. É um compromisso com o equilíbrio”, resume Fernanda.


Na contramão da lógica industrial


A produção segue um ritmo que contrasta com a lógica industrial. Cada destilação gera, no máximo, 200 garrafas. São microlotes, onde cada safra de botânicos e cada colheita de mel imprimem variações sutis no resultado final. “Mesmo com os mesmos ingredientes, nenhum lote é igual ao outro. O botânico muda com a estação, o mel muda com a florada. O artesanal tem essa identidade viva”. Mas esse cuidado também traz desafios. O custo para legalizar uma destilaria artesanal pode ultrapassar R$ 150 mil apenas para adequar o espaço às exigências do Ministério da Agricultura e da Vigilância Sanitária. Impostos e burocracia que tornam o caminho dos pequenos produtores quase inviável. “Para o grande, é multa. Para o pequeno, é o fechamento da empresa. Por isso, o apoio de instituições como Emater, Sebrae e prefeituras é fundamental”. 


No rótulo London Dry, o primeiro da marca, um ingrediente inédito no universo do gin ganha protagonismo: a castanha de baru. Foto: Fred Amorelli
No rótulo London Dry, o primeiro da marca, um ingrediente inédito no universo do gin ganha protagonismo: a castanha de baru. Foto: Fred Amorelli

A extensionista da Emater-MG, Adriene Patrícia Mendes, destaca que, em Nova Lima, a  instituição  atua  em  parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMAN) e tem um papel importante no apoio e orientação aos produtores em processos de adequação sanitária e meio ambiente. “O processo envolve desde as boas práticas de produção e processamento, até a organização da documentação e da estrutura das agroindústrias para conquista dos alvarás sanitários”. Além disso, a Emater-MG também elabora projetos técnicos para que as agroindústrias acessem linhas de financiamento destinadas à industrialização e agregação de valor à produção do pequeno produtor rural familiar. 


Na destilaria, enquanto o gin segue como foco principal, novos projetos já estão em maturação. Literalmente. “Temos um whisky envelhecido em fase de testes e licores que já começam a ser desenhados no papel”, diz Fernanda. O alambique está pronto para explorar outros caminhos, sempre mantendo a mesma premissa: identidade, cuidado e conexão com quem produz e com quem consome. 



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