O sabor da resiliência
- Revista Viva Nova Lima
- 16 de mar.
- 7 min de leitura
Saiba como três cervejarias artesanais de Nova Lima transformaram os desafios do mercado em estratégia, inovação e identidade para crescer e consolidar seus negócios

Por: Daniela Costa
Entre 2014 e 2018, o chamado “boom das cervejas artesanais” transformou regiões como o Jardim Canadá, em Nova Lima, em um verdadeiro polo efervescente de tanques, rótulos autorais e sonhos empreendedores. No auge desse movimento, mais de vinte fábricas artesanais se instalaram no bairro, atraídas pela proximidade com a capital, pela qualidade da água e por um público cada vez mais interessado em explorar novos aromas, estilos e experiências sensoriais. Poucos anos depois, o cenário mudou de forma significativa. A pandemia, a concorrência acirrada das grandes indústrias e, sobretudo, fragilidades na gestão e no planejamento financeiro interromperam a trajetória de muitas marcas que haviam nascido pelo entusiasmo do mercado.
As marcas que resistiram ao cenário adverso entenderam que o desafio vai muito além da paixão pela cerveja. “Os custos de produção são elevados, especialmente com insumos, embalagens, energia e logística”, afirma Marcelo Paixão, sócio-diretor da Verace. Soma-se a isso a alta carga tributária e a complexidade regulatória, que exigem capital, tempo e uma estrutura administrativa robusta. “Temos uma equipe de excelência em todas as etapas do processo, mas nem sempre é fácil encontrar mão de obra qualificada”, relata Alexandre Viggo, diretor de Marketing da Krug Bier. Outro agravante é a força das grandes cervejarias, que dominam preços, canais de distribuição e os principais espaços nos pontos de venda. “Apesar da concorrência desleal, mantemos o mesmo compromisso com controle de qualidade, rastreabilidade dos insumos e conformidade com as normas do MAPA e da Vigilância Sanitária”, afirma Henrique Miranda Ribeiro, CEO da Läut.
Ainda assim, Nova Lima preserva seu papel como referência na produção de cervejas artesanais ao reunir condições ambientais, mercadológicas e estratégicas favoráveis ao setor. Entre as marcas que resistiram, se adaptaram e encontraram novos caminhos, há um entendimento comum: no universo artesanal, a paixão só se sustenta quando caminha lado a lado com estratégia, investimento e profissionalismo.
Da tradição austríaca ao coração de Minas
Fundada em 1997, quando o bairro Belvedere ainda dava seus primeiros passos, a Krug Bier se tornaria um dos nomes mais emblemáticos da cerveja artesanal em Minas Gerais. Foi a primeira do estado a adotar o conceito de brewpub, no qual a bebida é produzida e consumida no mesmo espaço, apos-tando em frescor, identidade e experiência como diferenciais. A origem da marca, no entanto, atravessa o oceano. A história começa na Áustria, onde o avô de Herwig Gangl Filho, fundador da Krug no Brasil, tornou-se sócio de uma fábrica inserida em uma tradição cervejeira de mais de 300 anos. Em 1958, a família participou do lançamento da primeira pilsen austríaca, uma German Pils guiada pela Lei da Pureza da Baviera , símbolo de uma cultura em que a cerveja ocupava lugar cotidiano à mesa.
Essa herança encontrou terreno fértil em Minas nos anos 1990. Em 2004, a Krug lançou a linha Áustria, inspirada em receitas europeias. No ano seguite, transferiu a fábrica para o Jardim Canadá, ampliando a produção e passando a atender bares, restaurantes e supermercados dentro e fora do estado. A inovação seguiu como marca registrada. Em 2016, nasceu a linha Expressionista, com rótulos de linguagem visual contemporânea. Foi nesse período que Alexandre Bruzzi ingressou na empresa e hoje atua como diretor de marketing.
Com produção ininterrupta, 24 horas por dia e sete dias por semana, a fábrica garante que o chope saia do tanque de madrugada e chegue ao ponto de venda no dia seguinte sempre fresco, com validade de apenas sete dias, pre-servando a qualidade e o sabor que diferenciam o produto das cervejas pasteurizadas de longa duração. Atualmente, a Krug supera a marca de 1,2 milhão de litros produzidos por mês, conta com cerca de 125 colaboradores e mantém um portfólio com mais de 25 rótulos.
A German Pils, lançada em 2020, tornou-se a mais vendida da casa , acumulando prêmios em concursos como a Brasil Beer Cup com estilos como a Amber Lager, Krug 20 - cerveja sem glúten - e a Krug Light, mais leve. No ano passado a marca lançou a KrugZero, cerveja sem álcool e bem aceita pelo consumidor. “O segredo do nosso sucesso é ter equipe de excelência em todas as fases do processo, da produção à expedição, garan-tindo a qualidade da nossa bebida”, diz Alexandre. São mais de 1000 pontos de vendas em Belo Horizonte e região metropolitana. “O nosso produto é 100% natural, sem conservantes. O processo de maturação e fermentação respeita o tempo da cerveja”.
Nos últimos cinco anos, a empresa investiu cerca de R$ 15 milhões em modernização e expansão. Para 2026, os planos incluem rótulos sazonais, o fortalecimento da linha zero álcool e a ampliação da estrutura.

Mais do que cerveja, um plano de negócio
Quando Marcelo Paixão atravessa o portão da Verace, no Jardim Canadá, não vê apenas tanques de aço e linhas de envase. Ele enxerga uma decisão tomada há quase uma década: tratar a cevejaria artesanal como empresa desde o primeiro dia. Sócio-diretor comercial da marca, Marcelo conta que a Verace nasceu em 2013, quando dois dos sócios produziam cerveja em casa por hobby. Diferente de muitas cervejarias artesanais que começaram alugando estruturas de terceiros, o grupo optou por investir pesado. O aporte inicial ultrapassou R$ 5 milhões, destinados a automação, laboratório interno, equipe técnica e fábrica própria. “Desde o início, não era só paixão. Tinha modelo de negócio, estratégia e gestão”, afirma.
Hoje, a produção gira em torno de 150 mil litros por mês, com foco em Minas Gerais e presença em estados como São Paulo e Espírito Santo. A marca também está em mais de 500 bares em Belo Horizonte, participa de eventos e oferece delivery de chope e garrafas. Sua estrutura inclui químico e biólogo na equipe e controle rigoroso de processos. “Você pode até não gostar da nossa cerveja, mas ela não vai mudar. O padrão é inegociável”, diz Marcelo. O resultado aparece em premiações: a Verace figura entre as mais reconhecidas do país no Campeonato Brasileiro de Cerveja (CBC), realizado em Blumenau (SC), com medalhas de ouro, prata e bronze e títulos de melhor cervejaria em diferentes edições.
Para o sócio, a boa cerveja começa em quatro pilares: malte, lúpulo, levedura e água. A empresa trabalha com insumos importados, principalmente da Europa, e trata a água conforme o estilo de cada rótulo. Entre os destaques do portfólio estão as tradicionais Verace Pilsen, Lager, German Pils e rótulos diferenciados como a King’s Cross, uma English Pale Ale e a American IPA, Sirena. Gestão e qualidade garantiram o sucesso da marca. Marcelo lembra que, entre 2014 e 2018, o chamado “boom das cervejas artesanais” atraiu dezenas de empreendedores para regiões como o Jardim Canadá, que chegou a concentrar mais de 20 fábricas no auge do movimento. Hoje, restaram poucas. A pandemia, a concorrência das grandes indústrias e, principalmente, erros de gestão, deixaram muitos negócios pelo caminho. “Não é um mercado fácil. Você concorre com gigantes globais, enfrenta uma carga tributária pesada e precisa de administração profissional. Sem isso, não sobrevive”, afirma.

Da panela no escritório à plataforma de bebidas
A história da Läut começa de forma quase improvisada. Em 2016, o advogado Henrique Neves produzia suas receitas nos fundos do escritório, em uma casa no bairro Belvedere, em Belo Horizonte. Um ano depois, decidiu atravessar a BR-040 e instalar a fábrica no Jardim Canadá, em Nova Lima. A produção inicial era de 20 mil litros por mês. Em 2021, a entrada de novos sócios fortaleceu a estrutura da Läut. No mesmo ano, a marca lançou sua cerveja Pilsen em lata, ampliando seu portfólio e facilitando o acesso dos consumidores aos seus produtos. Hoje o cenário é ainda melhor. A empresa atinge cerca de 2 milhões de litros por ano, conta com aproximadamente 200 colaboradores e está presente em mais de 300 cidades, em cinco estados. À frente da estratégia está Henrique Miranda Ribei-ro, CEO com passagem pelo mercado financeiro que define a marca como uma “família Läut” movida por técnica, criatividade e leitura de mercado.
O primeiro rótulo foi a Pilsen, que se tornaria o carro-chefe da casa. Em 2022, a receita conquistou medalha de ouro no Festival Nacional de Cervejas, em Blumenau (SC), reforçando o compromisso com controle de qualidade, rastreabilidade de insumos e conformidade com as normas do MAPA e da Vigilância Sanitária. “Cada lote é identificado e rastreável do insumo ao ponto de venda”, diz o CEO. Segundo Henrique, para garantir qualidade técnica e personalidade sensorial em uma boa cerveja artesanal, alguns ingredientes são essenciais. “A água é o ingrediente mais sub-estimado e, ao mesmo tempo, o mais determinante. Representa mais de 90% da cerveja. O perfil mineral (cálcio, magnésio, sulfatos, cloretos) influencia diretamente o corpo, amargor e percepção de dulçor”, revela.
O Malte é a base estrutural da cerveja. “Define cor, corpo, dulçor, complexidade e parte do aroma”. Por fim , o Lúpulo, é res-ponsável pelo amargor. Hoje, o portfólio da marca soma oito rótulos, com destaque também para a De Leve, uma Light Lager zero carboidratos, zero açúcar e sem glúten. A linha Montesa reúne estilos clássicos, enquanto as IPAs exploram perfis mais aromáticos. Desde 2021, com a entrada de novos investidores, a Läut ampliou o escopo e se posiciona como uma plataforma de bebidas: além das cervejas, opera com gin, vodka e bebidas prontas. Recentemente, integrou o projeto Like Wine, ajudando a potencializar a distribuição dos inovadores espumantes em lata com sua ampla rede de parceiros. O investimento total já ultrapassa R$ 15 milhões.
As projeções para o setor cervejeiro indicam crescimento anual entre 9% e 10,5%. As artesanais representam apenas 2% a 3% do mercado brasileiro — contra cerca de 25% nos Estados Unidos —, e ainda há muito espaço para avançar.
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