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Positividade tóxica x Psicologia positiva

Especialista em Psicologia Positiva, a palestrante mineira Alessandra Valente Mattar percorre o Brasil levando uma abordagem que valoriza as qualidades e virtudes humanas como caminhos para uma vida mais plena


“A psicologia tradicional costuma focar muito no que deu errado. A positiva olha para o que deu certo e fortalece isso”, diz Alessandra Mattar. Foto: Leca Novo
“A psicologia tradicional costuma focar muito no que deu errado. A positiva olha para o que deu certo e fortalece isso”, diz Alessandra Mattar. Foto: Leca Novo

Em um mundo marcado pela velocidade, pelas conexões instantâneas e pela constante sensação de mudança, falar sobre felicidade se tornou um exercício cada vez mais com-plexo. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu esse cenário como “modernidade líquida”, um tempo em que relações, identidades e certezas parecem escorrer pelos dedos, moldando estilos de vida fortemente influenciados pelo consumo e pela informação. Nesse contexto, surge uma inquietação contemporânea: como cultivar bem-estar em uma sociedade que, muitas vezes, mede valor e pertencimento a partir do que se possui ou se exibe?


Entre discursos que oscilam do pessimismo extremo à chamada “positividade tóxica”, o debate sobre o que realmente significa viver bem ganhou novas camadas ao longo do século XX. Foi nesse movimento que nasceu a “Psicologia Positiva”, um campo que propõe deslocar o foco exclusivo das fragilidades para também destacar as qualidades humanas. A primeira referência ao termo apareceu em 1954, no livro A Theory of Human Motivation, do psicólogo americano Abraham Maslow, que já defendia a importância de compreender as motivações e os potenciais que impulsionam o desenvolvimento pessoal. A partir daí, a Psicologia Positiva passou a ser reconhecida como uma área dedicada a estudar virtudes, talentos e capacidades que favorecem uma vida mais significativa, tanto no âmbito pessoal quanto coletivo.


Para Alessandra Valente Mattar, especialista com certificação nacional e internacional em Psicologia Positiva, essa abordagem não se confunde com a busca por uma felicidade constante e idealizada. Trata-se de aprender a reconhecer o que há de construtivo nas experiências, mesmo diante das adversidades. “Ser positivo é muito diferente de estar sempre feliz”, afirma ela.


REVISTA VIVA NOVA LIMA - A sua formação é em Administração e Marketing , além de ter cerficação internacional em Psicologia Positiva. O que motivou essa transição e como essas áreas se conectam na sua área atual?


ALESSANDRA MATTAR - A transição foi de amadurecimento. Eu sempre digo que a psicologia está na vida e deveria ser uma matéria obrigatória em todos os cursos e para todo mundo. Com o tempo, fui sentindo a necessidade de estudar mais sobre o com-portamento humano e acabei conhecendo a psicologia positiva, com o Tal Ben-Shahar, professor e escritor, reconhecido por popularizar a Psicologia Positiva em Harvard, defi-nindo-a como a ciência do bem-estar cultivável. Vi que aquilo tinha tudo a ver com o meu propósito de vida. A psicologia me deu escuta, profundidade e sentido. Já a administração e o marketing me deram estrutura, visão de gestão e de comunicação. Hoje, tudo se conecta no jeito como eu levo as palestras, os projetos sociais e a atuação nas empresas.


Você diz que viveu “duas realidades” ao circular pelo universo da moda de luxo. Que aprendizados esse contraste te trouxe sobre felicidade e expectativas sociais?


A moda de luxo é quase um poder paralelo à realidade do Brasil. Quando você faz projetos sociais e, ao mesmo tempo, circula nesse universo, você realmente vive duas realidades muito diferentes. E eu não critico nenhuma delas. As duas têm seus valores. O que comecei a perceber é que a felicidade não está nos extremos. Onde as pessoas acham que existe só alegria, muitas vezes existe tristeza. E onde parece que só existe dor, também existe alegria. A vida é esse equilíbrio entre os dois lados.


“Eu sempre digo: se você não sente prazer no cheirinho de um café ou de um bolo quente, talvez esteja indo para o caminho errado. A felicidade está nessas pequenas coisas”. Foto: Leca Novo
“Eu sempre digo: se você não sente prazer no cheirinho de um café ou de um bolo quente, talvez esteja indo para o caminho errado. A felicidade está nessas pequenas coisas”. Foto: Leca Novo

Na prática, qual é a principal diferença entre a psicologia tradicional e a psicologia positiva?


A psicologia tradicional costuma focar muito no que deu errado. A positiva olha para o que deu certo e fortalece isso. Dou sempre o exemplo da escola: um aluno que vai muito bem em matemática e muito mal em português. Antes, a lógica era: “Matemática você já sabe, agora foque só no português”. Hoje, a visão é diferente. Claro que ele precisa estudar tudo, mas se você investe energia apenas no que é fraco, perde a chance de crescer ainda mais no que é forte. A psicologia positiva trabalha exatamente isso: potencializar as forças.


Como o fortalecimento das forças individuais pode transformar a autoestima?


Existe um teste simples que mostra quais são suas maiores forças. São elas que te sustentam. No meu caso, por exemplo, a espiritualidade é a número um. Quando não cuido dessa parte, tudo desequilibra. Saber o que te fortalece, o que te “robusta”, te dá uma base emocional muito mais sólida para enfrentar desafios.


Quais práticas simples você recomenda para o dia a dia?


Uma dica fácil é agradecer por cinco coisas, de manhã ou à noite. Coisas simples mesmo: estar respirando, tomar um café, ver o sol. O cérebro, por proteção, se agarra mais às coisas negativas. Quando você treina a gratidão, começa a reeducá-lo para perceber as coisas boas antes das ruins. Com o tempo, isso muda a forma como você enxerga a vida.


Você leva a psicologia positiva para empresas e escolas. Que mudanças observa nesses ambientes?


É muito visível. A produtividade aumenta, a rotatividade diminui, os afastamentos por burnout e outros problemas psicológicos caem bastante. Então, além de ser positivo emocionalmente, também é financeiramente. Investir em saúde emocional é investir no ambiente como um todo.


O seu trabalho social em presídios femininos e com pessoas em situação de rua é marcante. O que mais te impactou nessas experiências?


O grande dilema foi justamente esse: como focar em coisas positivas em um ambiente tão difícil? Muitas mulheres em cárcere já esqueceram quais são suas forças, seus sentimentos, quem elas são de verdade. O trabalho foi resgatar isso, fortalecer o que ainda existe de bom dentro delas.


Como a ressocialização pode impactar a comunidade?


Existe muito preconceito. Muita gente diz: “Ajuda quem é do bem”. Ainda não compreendem que a ressocialização é um bem para toda a sociedade. Se você solta um ser humano pior do que ele entrou, isso vira um problema para todo mundo. Mas, infelizmente, a maioria das pessoas não percebe isso.


O que você define como “felicidade real”?


É ser você mesmo. Se conhecer, saber seus limites, saber o que te preenche. A gente se mascara muito. Eu sempre digo: se você não sente prazer no cheirinho de um café ou de um bolo quente, talvez esteja indo para o caminho errado. Felicidade está nessas pequenas coisas.


Como a psicologia positiva transformou a sua própria vida?


Mudou tudo, 180 graus. O meu foco se voltou para o autoconhecimento e para a compreensão do que realmente me fortalece. Aquilo me deixa mais forte e mais inteira.


Quais são seus planos e projetos para 2026?


Temos vários, inclusive em Nova Lima. Em maio, vamos lançar um projeto grande chamado Diálogo de Gerações, realizado junto com a minha filha. A ideia é falar sobre empreendedorismo, psicologia, relações entre mães e filhas. Nossa meta é rodar o Brasil com esse projeto, levando essa conversa para diferentes públicos e realidades. Sempre divulgando a Psicologia Positiva.



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