A alquimia dos sabores
- Revista Viva Nova Lima

- 25 de mai.
- 4 min de leitura
Mixologista de Brumadinho valoriza a culinária e a cachaça regional por meio de uma jornada sensorial que desperta e surpreende tato, olfato e paladar

Por: Daniela Costa
Na atmosfera mística da Serra da Moeda, em Brumadinho (MG), surge uma proposta que extrapola os limites da gastronomia tradicional. Entre ingredientes regionais, técnicas contemporâneas e referências históricas, a mixologista Marcela Azevedo desenvolve um trabalho autoral que integra pesquisa, cultura e experiência sensorial à mesa. Consi-derada uma das poucas — e talvez a única — mulher na América do Sul a atuar com foco em mixologia molecular, ela investe em uma abordagem inovadora da coquetelaria.
A técnica utiliza agentes espessantes e gelificantes para transformar textura, forma e apresentação das bebidas, resultando em composições que exploram diferentes estímulos sensoriais, como esferas que se rompem ao paladar, espumas aeradas e vapores aromáticos. “É como brincar com os estados físicos dos alimentos. Você pode transformar um drink em algo de comer, ou uma comida em uma experiência comple-tamente diferente”, explica Marcela.
Assim cada prato é apresentado com uma narrativa que contextualiza ingredientes, técnicas e referências históricas. Mais do que releituras, ela busca resgatar a origem real dos alimentos e da culinária mineira, conectando passado e presente. Um dos exemplos mais emblemáticos é o angu — prato que, segundo ela, está diretamente ligado à sabedoria indígena e às dinâmicas dos viajantes no período colonial. Em sua versão contemporânea, o preparo leva até dois dias em baixa temperatura, com carnes desfiadas e técnicas que preservam sabor e história. “O que torna a cozinha mineira única não é só o alimento, mas a prosa, a história por trás dele”, afirma ela.

A mesma lógica se aplica aos drinks. Licores de flores, frutas e ingredientes sazonais — como rosa, sabugueiro, gengibre, jabuticaba e mexerica — são produzidos artesanalmente, respeitando o tempo da natureza e o trabalho de pequenos produtores da região. Nada é fixo. O cardápio é definido dias antes, de acordo com a disponibilidade dos ingredientes. Não há desperdício: cortes irregulares, aproveitamento integral dos alimentos e produção sob demanda fazem parte da sua filosofia. “Não faz sentido falar de natureza e desperdiçar comida”, pontua Marcela. A experiência é sensorial do início ao fim. Espumas, texturas, aromas e até sons são pensados para provocar o paladar — entendido aqui não apenas como gosto, mas como percepção individual. “Paladar é pessoal. Às vezes a pessoa não gosta, mas entende. E isso já é uma descoberta”.
Historiadora de formação, Marcela iniciou sua trajetória pela pesquisa, e não pela cozinha. Há cerca de 15 anos, ao atuar com turismo na região de Brumadinho, aprofundou-se na história do território e identificou um aspecto pouco explorado: a relevância da produção de cachaça artesanal em Minas Gerais. Em antigas comarcas, como Piedade do Paraopeba, a atividade já teve forte presença e impacto na economia local. “Chegamos a ter registros de fazendeiros que produziam mais de um milhão de litros de cachaça por ano. E essa história simplesmente não era contada”, relembra.
A inquietação diante desse apagamento levou a mixologista a investigar mais profundamente. Foi então que descobriu os impactos da legislação sobre os pequenos produtores do setor, muitos dos quais encerraram suas atividades ou passaram a atuar informalmente. A resposta veio em forma de ação: junto com uma sócia, ela criou a “rota da cachaça”, uma experiência turística que aproximava o público dos processos, das terras e das histórias por trás da bebida.

O contato com a produção lhe despertou um novo interesse: transformar a forma como as pessoas se relacionavam com a cachaça. Em um país onde ainda há preconceito em torno da bebida, Marcela decidiu desconstruir estigmas e criar experiências. Autodidata, começou a criar seus próprios drinks, substituindo insumos industrializados por ingredientes naturais e regionais. Inspirada pelas tradições portuguesas de licores e pela riqueza da cozinha mineira, passou a produzir suas próprias bases, tendo sempre a cachaça como ingrediente.
Apesar da crescente valorização da gastronomia de experiência, a mixologista reconhe-ce que ainda há resistência do público — não apenas mineiro, mas cultural. “Muitas vezes as pessoas ainda consomem o lugar, o nome, e não a experiência. Mas quem se permite, descobre um novo mundo”. E é exatamente esse convite que move seu trabalho: provocar, contar, transformar. Ela promete seguir criando — não apenas pratos ou drinks, mas pontes entre o passado e o presente, entre o simples e o extraordinário, em uma verdadeira alquimia mineira.
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